Tarot
de Marseille
Certa
vez eu ouvi dizer que o jogo de Tarot é muito antigo...
e que suas origens estão no Egito. Parece que tudo
o que tem uma origem incerta veio de lá... e eu não
me atrevo a contestar... O fato é que meu interesse
por tarot surgiu ao acaso: certa vez, ao comprar um exemplar
da revista Planeta, ganhei como brinde um deck completo
de cartas de tarot de Marselha. Como havia o método
de interpretação das mesmas naquela revista
também, eu resolvi estudá-las e ver se funcionavam.
Sim, funcionam...
Quem vai em busca de respostas prontas, há de achar
o Tarot um método estranho. Todas as cartas possuem
um significado, tanto maior nos arcanos maiores propriamente...
e este significado compreende um sem número de significantes,
símbolos a traduzirem o que hoje convenciona-se chamar
o inconsciente. A memorização de todos eles
acaba nem sendo o mais importante. O que vale é ver
o que eles estão dizendo no momento da leitura. E
eles falam, numa linguagem arquetípica, que todos
são capazes de compreender. Mas... eu fui teimosa...
Confesso que tive a maior dificuldade no começo tentando
gravar de memória o significado de todas as cartas...
haja visto que é um número elevado... ainda
por cima cheio de possibilidades de interpretação...
Então, um belo dia eu resolvi jogar os Arcanos Maiores
do tarot sem me preocupar com o que era cada uma das cartas,
apenas tomei o cuidado de fazer o ritual de embaralhá-las
com ambas as mãos enquanto pensava na questão
que me atormentava, cortá-las da direita para a esquerda,
fazer os dois montes e dispô-las no formato de cruz...
Surpresa das surpresas, a carta que representava o momento
presente era o Arcano da Lua. Ora, veja que a Lua habita
a noite, representa a força feminina latente... a
água e o escorpião em baixo significando não
só a umidade mas também o sentimento, o sentir...
de repente, fez sentido! Era um momento delicado, em que
eu me encontrava numa encruzilhada da vida, e que coisa!:
a carta falou do tanto que eu estava chorosa... Na sequência,
a Casa de Deus, uma carta que fala por si mesma: ruptura,
fim de ciclo, forças agindo no sentido contrário
à construção ( já que representa
a destruição)... O Diabo logo a seguir: bloqueio!
Sim, o Diabo representa um bloqueio, justamente na posição
da carta que representava as forças ocultas atrapalhando
meus projetos... enfim, era só ver para
entender o que estava se passando! Fui sofregamente para
a última carta, o desfecho: e lá estava a
Estrela. O que mais uma estrela pode representar? Dá
tudo de si, não pede nada em troca... é só
pensar um pouco. despojamento! Sim, era o que eu precisava.
Vejam que não significa nada para quem venha a ler
estas linhas o que este final representou para mim naquele
momento. Entretanto, aquilo teve um poder imenso de fazer
vir por terra toda minha apreensão. Eu estava tensa,
sem saber um rumo a ser tomado a fim de me desvencilhar
de uma situação incômoda e, o simples
fato de ter feito aquela leitura simples, despretensiosa,
foi capaz de me acalmar e ver uma luzinha lá no final
do túnel: eu precisava dar mais de mim mesma, sem
esperar algo em troca...
Lógico que eu parti para outros desafios depois dessa
primeira tentativa: comecei a ler para os outros. O mais
interessante de tudo é que, ao deixar minha mente
livre das impressões do momento, de quem era aquela
pessoa na minha frente, eu podia ver o que estava
se passando com ela em cada uma das cartas... achei aquilo
impressionante... mas não tem nenhum mistério:
é apenas um ato de deixar fluir a imaginação
e fazer as conexões de idéias do que cada
um dos símbolos pode vir a representar para a pessoa
em questão.
Assim aprendi que a leitura do tarot é, antes de
mais nada, um exercício tanto de concentração,
quanto de visualização, uso da intuição,
da imaginação... é desta forma mesmo
para quem nunca aprendeu o que cada uma das cartas significa.
A prova disso é que existem vários tipos de
deck de cartas, com desenhos diversos e em cada um há
os símbolos que o autor das mesmas quis dar a elas.
Não há o que temer: é só ter
em mente que cada uma das cartas é um mergulho rumo
a compreensão daquilo que somos, daquilo que arquivamos
em nosso inconsciente...
Portanto, entrar para o mundo mágico mais e mais
parece ser entrar em contato com o que temos de mais nosso:
nossos pensamentos, nossa capacidade de intuir, nossa capacidade
de concentrar... não há mistério algum:
é só começar. Vai ter gente a vida
inteira dizendo que há métodos e que eles
devem ser seguidos. Sim, eles devem ser seguidos mas apenas
com o intuito de dar nomes aos bois na hora
de saber o que está se passando. No mais, todos nós
podemos abstrair e deixar a nossa voz interior falar. Ela
vai falar de mundos incríveis, de sonhos por realizar,
de desejos, de vida... tudo sem mistérios. Os rituais,
todo cerimonial serve apenas para criar um ambiente intimista.
O mais importante para a leitura é entrarmos em contato
conosco mesmos... sem medo, sem aflição...
deixar fluir... e, principalmente, sentir.
Lígia Amorese Gallo
* Ilustração: Claudio Salvio
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