Bem - vindo, Belo Horizonte,
Busca:
 
Choose your languague:

Entrevistas

Entrevista exclusiva com Antônio Roberto.

Ele é formado em administração de empresa e direito, mas tem chamado a atenção e sensibilizado as pessoas pela sua fala direta, simples, mas ao mesmo tempo sábia, sobre temas que perpassam as relações humanas. Sem academicismo e pedantismos, Antônio Roberto Soares dá o recado. Ele fala ao coração das pessoas e elas parecem escutar.
Essa tem sido sua rotina nos últimos 28 anos, tempo que vem se dedicando às palestras sobre comportamento humano e a importância do crescimento individual para o significado da vida, do amor, da felicidade e do equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.

Ouvi-lo falar dá uma sensação de que a vida pode ser bem menos complicada. Ele considera o livre-arbítrio um privilégio porque permite ao homem escolher quem quer ser na vida.

Perguntei se ele acreditava em reencarnação e, em vez de uma resposta filosófica, ele declarou: “Eu não sei. É possível, mas é impossível também. Depois que vi uma semente, guardada durante dois anos numa gaveta, germinar e virar uma árvore enorme, não duvido de mais nada. Tenho visto tanta coisa incrível! Quando olho para o céu e sei que lá está a Via Láctea com 100 bilhões de estrelas eu não posso duvidar de nada. Tudo isso é fichinha perto do que eu estou vendo aqui na Terra diariamente. As pessoas relatam um desejo estranho de subir bem alto no céu na tentativa de se aproximarem de Deus, mas já estamos no céu, porque fazemos parte de uma galáxia. Tem gente que faz um esforço enorme para achar Deus. Acho que se a gente parasse um pouquinho só, Ele achava a gente”.

Assim é Antônio Roberto. Um homem criado dentro da religião católica, uma pessoa de extrema religiosidade. “Sou cristão porque creio no grande Messias que foi Jesus Cristo, mas não pertenço a nenhuma religião e nenhuma delas me pertence”.


INFINITO -Qual a importância da religião na vida das pessoas?

Antônio Roberto Soares - Primeiro temos que distinguir entre religião e religiosidade. A religiosidade é muito importante porque é a religação do homem com a natureza, com Deus, com o cosmo, com o universo, com o outro e consigo mesmo. Essa é uma tendência natural. É o impulso para o infinito. Pessoas que têm ligação natural com o infinito, com o desconhecido, viverão com maior abundância, maior amor ao próximo. A religião é possuir uma crença religiosa, um ritual. A religião é uma escolha e um caminho para a religiosidade, um meio para a pessoa entrar em contato com a divindade. Em si, ela não é o essencial e, sim, o impulso que o indivíduo tem de se ligar a Deus. A religião acaba sendo importante na medida em que facilita essa ligação. Todos os rituais, sons, mantras, o cheiro do incenso criam um clima para que você entre em contato com o eu interior e, conseqüentemente, com o eu cósmico.


A violência seria uma conseqüência da falta de espiritualidade?

Com certeza. O grande dom espiritual são os valores que essa espiritualidade encarna, tais como solidariedade, amor, alegria e celebração. Na medida em que falta essa espiritualidade, faltam também esse valores. Aí vão prevalecer os valores ditados pela nossa sociedade, como competição, passar a perna no outro, que levam a toda sorte de violência. Quando eu não respeito a mim e ao outro, a violência aparece. Toda violência é uma invasão ao espaço de alguém, seja físico ou da vida. Eu não respeito o outro como indivíduo, como alguém que é outro que não eu. E isso tem muito a ver com os valores disseminados com a sociedade competitiva que privilegia o prazer imediato acima de qualquer coisa. De repente eu quero dinheiro e não tenho, então mato o meu pai e a minha mãe; eu quero o carro do outro, simplesmente o mato; quero um filho, vou na maternidade e roubo um bebê. O prazer é algo bonito e sagrado. Nós todos o buscamos, mas não imediato e a qualquer preço. Tem hora que tenho que adiar o meu prazer em função da realidade. A religiosidade nos ensina a conjugar o material com o espiritual, o imediato com o depois, o prazer com a realidade.


A fé remove montanhas?

Aqui temos que distinguir a diferença entre fé e crença. A fé é uma abertura do meu coração à verdade seja qual for. É uma disponibilidade para o desconhecido, para o mistério, para Deus. A crença é a certeza. A fé, por incrível que pareça, é uma dúvida, assim eu não sei, mas estou aberto para o que for. Certa vez perguntaram a Buda se ele continuaria acreditando em Deus caso houvesse uma comprovação científica da sua existência. Buda respondeu: “Claro que não”. Esse não saber que caracteriza o verdadeiro místico, essa abertura a qualquer possibilidade é o que é bonito na fé. A fé não é a certeza. Ter crença é relatividade fácil, você simplesmente acredita. Não saber e acreditar com o coração aberto é difícil. Esse é o verdadeiro místico, Alguém que tem certeza que alguma coisa existe ou não existe dá no mesmo, é tudo certeza. A fé no sentido de abertura para o desconhecido remove qualquer montanha, todos os mares porque remove o fundamental: a ignorância que é a certeza.


A sociedade moderna abandonou os ritos familiares. O que isso representa no psiquismo das crianças?

Os ritos da família antiga, apesar de muito bonitos, eram extremamente opressores, controladores e moralistas. O almoço de domingo na cada da avó não era uma confraternização para brincar, falar da vida. Era uma grande oportunidade para se perguntar com quem o neto estava andando, o que estava fazendo e criticar a mãe que não estava dando uma educação adequada. A família antiga está cedendo lugar a uma nova família, mais bonita, mais voltada para fora, mais globalizada. A salvação da família está fora dela. Está no pobre que você vai ajudar, no amor e no desconhecido. Indivíduos que estão fora dessa família extremamente incestuosa e egocêntrica. Novos ritos estão aparecendo. Os filhos que estão fora e se encontram no Natal, no aniversário de alguém. Aí sim é uma festa porque ela é muito livre. Vem se quiser, se e quando puder. Eu, por exemplo, tenho uma filha que mora na Suíça e está chegando para o Natal, a outra mora nos Estados Unidos e também vem. Quem sentir vontade vem, senão vai viajar para onde quiser. Essa autonomia propicia um encontro mais bonito, menos controlador. É claro que a sociedade mudou. Hoje você tem mil mecanismos de contato que antes não existiam. Hoje posso conversar com meu filho na Austrália, pelo telefone, pela Internet. A família hoje está mais unida, mas cada um com a sua autonomia. Cada um na sua. O mundo está mudando sim e outras formas de rituais religiosos estão surgindo. Por outro lado, percebo uma certa dificuldade de envolvimento, de compromisso, mais especificamente no jovem. Sinto que ele tem medo de se envolver afetivamente e por isso instituiu o “ficar”. Essa dificuldade se dá até mesmo no trabalho e com a vida. No outro extremo, encontram-se pessoas que se envolvem mais com a vida e com o mundo. Existem pessoas indiferentes e amorosas. Acredito que o crescimento do homem é sempre pendular. No passado a família era opressora e agora é mais descompromissada. O que vai surgir daí? Uma terceira opção, um equilíbrio, o caminho do meio. Do amor-proteção a família caminhou para o amor-escolha. Até mesmo dentro do contexto religioso, a nossa visão de Deus mudou radicalmente. No passado, Ele era castigador , na verdade tinha a mesma imagem do pai, da família. Hoje nos relacionamos com um Deus misericordioso, compreensivo, que simbolicamente é a imagem do pai dessa nova família que foi surgindo.


O ser humano está preparado para morrer?

Há um tabu terrível em relação à morte. A gente não fala da morte, não a contemplamos. Temos duas grandes certezas: a vida a a morte. A vida deveria ser a preparação para a morte, esse momento iniciático, profundo, tal o seu desconhecimento. A nossa cultura nega a morte. Estamos muito pouco preparados para a morte e para a vida. A única saída para a morte é viver intensamente, mas aí temos outro tabu, o da sexualidade e do prazer. O grande tabu em relação ao sexo não é propriamente a sua prática, mas a relação íntima que ele guarda com a vida porque ele é a origem da vida. A sociedade é contra a espontaneidade, a alegria, o prazer, o brincar, o dançar, o cantar e é contra também a morte. A morte não é o contrário da vida, faz parte da vida. São duas coisas inteiramente juntas. Se eu nego a vida eu nego a morte. A espiritualidade consiste em superar esse tabu na medida em que se vive intensamente, no presente.


O mercado editorial de livros de auto-ajuda fatura milhões anualmente. Como o senhor vê essa busca frenética?

Há uma carência espiritual porque os valores foram deixados de lado. Os nossos jovens hoje têm pouquíssimo contato com a religião, com os rituais, com a Igreja, As pessoas foram se afastando dos templos, da religião e, conseqüentemente, da religiosidade. Os livros de auto-ajuda agradam porque abordam mais o aspecto emocional. Nós não fomos treinados para um relacionamento sadio, alegre e feliz. Temos uma aspiração de amor, de encontro com o outro, mas o modelo que nos ensinaram não deu certo. Foram tantas as coisas mal ensinadas que se gerou uma deficiência acentuada para lidar com o ciúme, a inveja, com a depressão, ansiedade, sexualidade e o outro. São tantas coisas que não nos ensinaram que se abriu uma brecha para esse tipo de literatura. Grande parte desses livros tem um valor muito grande porque nos ensinam realmente como lidar com a nossa vida emocional. Não há incompatibilidade entre isso e a religião. Muita gente coloca a religião como uma resposta para todas essas questões. Ela supõe um desenvolvimento emocional e físico. É muito comum ver pessoas evoluídas espiritualmente, mas que são invejosas, ciumentas e complicadas. Isso porque entenderam que uma coisa não é complementar à outra. Do ponto de vista religioso, a graça supõe a natureza humana.


As pessoas buscam mais um milagre do que propriamente o caminho penoso do auto- aprimoramento?

Uma outra forma infantilizada de eu me ligar com Deus é vê-lo como um Pai protetor, que faz comigo tudo aquilo que um pai faz com uma criancinha. Deus só faz uma parte do milagre. A outra parte você tem que completar. Ele já fez um milagre grande que foi o de te dar a vida, te dar sentimentos. A nossa parte de construção não tem substitutos e não será Deus a ocupar esse papel. Senão não precisaríamos de existir. Essa idéia de um milagre sem interatividade, sem a minha contrapartida, eu não acredito. Pode até ocorrer a intervenção direta de Deus, mas grande parte dos milagres somos nós que fazemos. A gente sempre pede coisas para Deus, como proteção. Existe um pouco de superstição nisso, como pé de coelho, um amuleto. Uma visão supersticiosa de Deus me protegendo do mal como se o mal estivesse fora de mim e alguém tivesse que me proteger dele. Nossa relação com Deus é muito mais amorosa. Algumas religiões têm por prática o agradecimento a Deus por todas as dádivas que Ele nos dá, a começar pela vida. Eu gosto disso. Deus nos entregou o livre arbítrio. Ele está mais preocupado em fazer com que você se torne o construtor do seu mundo. Tem uma história muito interessante de uma senhora rezando dentro da igreja, pedindo proteção para os seus filhos. Após alguns minutos de súplicas, ela ouviu uma risada e perguntou quem estava rindo. “ Sou eu, Deus”. Não estou entendendo. Eu venho piedosamente pedir pelos meus filhos e o senhor fica rindo. Ele revidou: “Estou rindo por um motivo muito simples. O meu filho eu deixei crucificar e o seu eu tenho que ficar de olho” . Então ela perguntou como teria que rezar. Ele ensinou: “ Deus dê a meus filhos humildade para se levantarem de novo se caírem, sabedoria para lidarem com o mal que eventualmente acontecer com eles, coragem para superarem os obstáculos com que vão se deparar”. São dois caminhos absolutamente diferentes. Posso pedir a Deus força para construir o mundo e fazer os meus milagres ou pedir que Ele faça.


Por que as pessoas só procuram Deus nos momentos de sofrimento?

São dois caminhos que leva à religiosidade: o amor e a dor. Uma pessoa amorosa sempre ela esbarra na idéia de Deus. A solidariedade, a compreensão do outro e a compaixão nos colocam em sintonia com algo mais profundo. A dor, a catástrofe, a tristeza profunda te despertam porque te colocam em contato com o limite, com a transitoriedade do humano e aí surge a indagação: não pode ser só isso. A desgraça é também um caminho para cair na real. Buda recebeu de seus pais uma informação sobre doença, morte e miséria que não correspondia com a sua percepção. Ele discordou dessa avaliação, persistiu em seu caminho e atingiu a iluminação.


A crença na reencarnação seria uma dificuldade em aceitar a finitude de todas as coisas?

A religião é uma técnica e um certo truque para te levar até Deus. Todas as religiões são um pretexto para te levar até o infinito. É por isso que todas elas levam. No Oriente, as religiões falam sobre as encarnações e sobre a necessidade do esforço para ficar livre da roda do sansara. No Ocidente, a técnica usada diz que a vida é uma só. Ou você aproveita essa chance ou não terá mais nenhuma outra.Gurdjieff falava sobre o sentido de urgência da vida. Algumas pessoas terão a alma preservada independente do seu caminho. Outras nem alma terão. Por isso, é melhor fazer o bem porque pelo menos assim essa vida terá valido a pena. No fundo o que importa é o nosso encontro com Deus.



 
Outros Cadernos

Entrevistas

Entrevista exclusiva com Patrícia Lucchesi.
Entrevista exclusiva com Antônio Roberto.
Entrevista exclusiva com Bob Pratt.
Entrevista exclusiva com Jeremy Narby .
Entrevista exclusiva com Margareth Starbird.
Entrevista exclusiva com Roberto Crema.
Entrevista exclusiva com Sir Laurence Gardner.
Entrevista exclusiva com Zecharia Sitchin.
Sir Laurence Gardenr Interview



   
 
| Copyright 2003 - Todos os direitos reservados ao Jornal Infinito |