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Espiritualismo ou esoterismo: uma questão de dialética.

Ana Elizabeth Diniz

O homem é um ser espiritual vivendo em uma realidade física, terrena. Uma experiência evolutiva com vistas ao aprimoramento da personalidade. O espírito é uma jóia, um diamante raro que reflete mais ou menos a luz criadora em função das escolhas que o livre-arbítrio faz durante as sucessivas possibilidades de aperfeiçoamento que o próprio universo concede, não apenas ao homem, mas a todas formas de vida, sejam elas do reino mineral, vegetal ou animal.

Tudo é cíclico, tudo é vivo, se refaz e se desfaz como as próprias partículas atômicas que compõem a estrutura molecular do grande universo que nos abriga, por ora. E sendo espiritual, o homem em algum momento de sua vida descobre essa realidade que nada tem a ver com religiosidade. Em algum momento o homem se move e se posiciona em sua vida respaldado na espiritualidade que nada mais é senão essa conexão com a sua morada interior, com esse espaço sagrado de onde vêm todas as certezas, as respostas, as soluções, os segredos. A origem da vida, os mistérios, a ancestralidade, a genética espiritual, a biblioteca akástica, o nosso acervo original. Aquele que é própria vida, pois é e ao mesmo tempo está contido na concepção original da raça humana.

Espiritualidade é um jeito de ser e de viver porque pressupõe a crença em uma realidade que extrapola as dimensões da tridimensionalidade, do concreto, do lógico, do provável e do comprovado. Espiritualidade é realmente um estado do espírito, a manifestação do sagrado que brota naturalmente como conseqüência de uma vivência íntima do espírito.

A espiritualidade é uma experiência cotidiana, como olhar para o próximo e vislumbrar o seu lado divino e não as imperfeições que aprisionam, é se levantar e agradecer simplesmente por estar vivo, é perceber o azul do céu, o canto dos pássaros, a chuva que refaz os ciclos da vida, a exuberância de uma flor, a mão que mostra o caminho, o amigo que fica bravo com você e te acorda para a necessidade de mudar. É se fazer merecedor dessa oportunidade maravilhosa que é viver. É acreditar no amor sempre. No beijo, no abraço, no olhar. É a fé no inexplicável, no intangível.

Ao contrário, o espiritualismo pressupõe acreditar em uma doutrina filosófica que tem como base a existência de Deus e da alma. Enquanto a espiritualidade é uma crença, uma fé, uma atitude de contemplação com uma verdade única e íntima, o espiritualismo requer a aceitação de um conceito, posto, revelado, filosófico, racional. Ele requer a aceitação da existência de uma entidade superior que criou o universo. Pressupõe a crença na alma, na imortalidade, na reencarnação.

O espiritualismo é um exercício intelectual, uma atitude, uma postura, uma opção filosófica. O espiritualista é cristão, pois acredita e se pauta no legado de Jesus Cristo, mas o cristão, não necessariamente é um espiritualista, pois pode não acreditar na imortalidade da alma, das múltiplas reencarnações, no aprimoramento espiritual. O espiritualismo é uma escola e a espiritualidade o caminho.

E o que seria o esoterismo? Antes de mais nada devemos fazer uma distinção entre exoterismo que se refere ao conhecimento transmitido publicamente, sem qualquer restrição e a esoterismo como uma doutrina hermética, restrita a um número seleto de pessoas. Durante séculos foi considerada secreta, oculta, confiada apenas para os iniciados, ou seja, aqueles homens cuja alma estava pronta e aberta para receber ensinamentos que surgiram em épocas remotas e imprecisas e que, inicialmente, foram passados através da tradição oral.

A palavra esoterismo vem sendo empregada erroneamente por algumas pessoas inescrupulosas, que tentam tirar proveito dos incautos, com intenção meramente comercial. São falsos profetas, curandeiros, videntes, paranormais que exploram a fé alheia, se aproveitam da fragilidade humana para extorquir dinheiro.

Mas o verdadeiro ensinamento esotérico aponta para o caminho do desconhecido e somente encontra eco interior naquelas pessoas de mente aberta, livre de preconceitos e que compreendem a realidade não pelo intelecto, mas pelo sentimento.O ensinamento esotérico de ontem pode ser o conhecimento explícito de hoje, o que é esotérico tende a exteriorizar-se ‘a medida que a consciência humana se expande. Quando autêntico, torna-se fermento do progresso interior de uma época inteira e de toda uma raça. Assim como foi com o maior esotérico de todos os tempos: Jesus, que conversava através de parábolas, transmitindo conceitos simples mas revolucionários. Jesus não criou uma religião. Ao contrário, ele pregou a sabedoria perene que não pertence a nenhum grupo, escola ou tradição específica.

Jesus deixou para uma humanidade um tesouro tão precioso e raro que, ao que parece, a humanidade ainda não conseguiu extrair dele a real mensagem. Poderíamos sem sombra de dúvida, chamar esse legado de esotérico, se considerarmos que a grandiosidade e sabedoria de suas palavras só serão compreendidas pela humanidade quando a consciência planetária tiver dado saltos quânticos em sua energia primordial que em outras palavras pode ser chamada de amor incondicional. Somente compreendendo a impermanência de todas as coisas e a necessidade de aprimoramento espiritual poderemos conhecer uma nova realidade.

* Ilustração por: Claudio Salvio.


 
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