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Sentada à Esquerda de Deus

Patrícia Lucchesi *

Toda tese pressupõe uma antítese. Este é um princípio fundamental da dialética. Para o positivo, o negativo; para o branco, o preto; para o sol, a lua; para o bem, o mal; para o côncavo, o convexo; para o feminino, o masculino. E para a igreja de Roma? Você já ousou fazer esta pergunta?

Poucos sabem que existiu uma igreja paralela, cátara, antítese de Roma. Seu nome? Amor, Roma de trás para frente – lindo nome! Obviamente foi um templo herege, não reconhecido pela autoridade episcopal. Diz-se que as mulheres tinham posições iguais às dos homens e que muitas pertenciam à linhagem sagrada e eram chamadas de “disposyni” (família do Senhor), sendo esta ascendência um dos princípios de sua fé. Esta Igreja heretisada seria uma tentativa de resgatar a legitimidade do princípio feminino ao lado do trono de Deus, em cuja direita está assentado o princípio masculino.

Nessa nova idade de Aquário, há que se resgatar o equilíbrio entre os pólos, na expressão da totalidade. Adeptos ou não do holismo, não se pode duvidar de que a tendência mundial é a da conciliação com o princípio negado, o feminino, na busca de uma união harmônica e profícua com o masculino. Rezam as profecias que o aguadeiro, símbolo do signo astrológico de Aquário, anunciaria a dissolução do sistema patriarcal, por meio da instituição do poder feminino, representado pela água. Se as profecias se cumprirão, isto só o tempo revelará, o que eu sei é que nunca se falou tanto em amor à dimensão feminina de Deus – muitas vezes traduzida como a Deusa, a Mãe Divina, a Mãe Terra ou simplesmente a Virgem, para os católicos.

Li uma emocionante entrevista de Margaret Starbid, especialista em escrituras sagradas, artes e literatura. Ela escreveu, entre outros títulos, o já traduzido para o espanhol “La Diosa em los evangelios” e o não menos polêmico “Maria Magdalena, esposa de Jesus?” Nestes livros ela avalia sistematicamente, na história das escrituras, as referências à “noiva perdida” e conclui, com argumentos irredutíveis, que a Igreja de Roma sabotou o verdadeiro e honroso lugar de Maria Madalena ao lado de Jesus Cristo, ungido por ela na famosa passagem do banquete. Ela teria surgido entre os convidados procurando por ele, seu amado, e com perfume ungiu sua cabeça, com lágrimas lavou os seus pés e com os próprios cabelos os enxugou. Ela, ao lado de Maria, permaneceram com ele até o último suspiro. Foi para ela que Cristo apareceu no dia da Ressurreição. Dada as inúmeras passagens em que aparecia ao lado de Cristo, fica difícil engolir a história que esta mulher foi apenas uma prostituta arrependida insignificante.

O fato é que a posição feminina sempre foi negligenciada na história judaico cristã. A inquisição se encarregou de queimar inúmeros indícios do poder feminino, legítimo representante do trono, à esquerda de Deus. A relação entre o sagrado e o profano – estando o feminino ao lado do demônio – permeia toda construção teocrática, gerando uma polarização antagônica e uma tendência ideológica à santificação do espírito (masculino) frente à mortificação da carne (feminino). As conseqüências deste antagonismo são nefastas, pois provocam uma crescente dessacralização do corpo e do campo dos desejos, tornando ainda mais problemática a já contraditória relação do sujeito com a sexualidade.

A ênfase na dimensão masculina de Deus Pai e a elevação de sua majestade às alturas, criou uma cultura de desprezo à dimensão material. A terra passou a ser negligenciada e maltratada a ponto de colocarmos em risco a manutenção da vida no planeta.

Há que se considerar a dimensão feminina de Deus Mãe e o amor à manifestação física da Criação, pois, do contrário, estaremos proclamando nossa própria aniquilação. O “despertar da Deusa” nada mais é que o soerguimento das forças de perpetuação da espécie, resgatando a justa reverência à fonte nutritiva que é a natureza.

A se considerar a arrogância de nosso discurso religioso, cuja doutrinação para o medo e para a culpa gerou um profundo desprezo pela carne, toda humanidade estaria fadada ao adoecimento. Se é que podemos avaliar alguma possibilidade de cura, teremos que lançar luz sobre a face feminina de Deus, dispensando todo cuidado e reparação necessários à terra e ao corpo.

A bem da verdade e da justiça, e em sinal de protesto à dominação do macho branco, vai aqui a minha denúncia: e do lado esquerdo do trono, não vai nada?


* Patrícia Lucchesi é psicóloga e escritora, especialista em Psicopatologia e Metodologia do Ensino Superior. Contato pelo e-mail: p.lucchesi@bol.com.br .

* Ilustração: Claudio Salvio.

 
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