O amor confesso de Paulo Coelho

O escritor lança “O Zahir”, seu livro mais autobiográfico em que tece uma história de amor
baseada em uma lenda islâmica
Ana Elizabeth Diniz
Paulo Coelho, o escritor que provoca a ira dos críticos, a inveja de seus pares, o descaso dos céticos e a atenção da mídia mundial, acaba de lançar “O Zahir”, seu mais autobiográfico livro. Uma nova epopéia junto a seus fiéis e devotos leitores espalhados por mais de 156 países, onde o escritor já vendeu quase 65 milhões de exemplares de livros, traduzidos para 57 idiomas. Um escritor que já publicou 19 livros, conquistou o topo do mundo com suas histórias que misturam realidade, ficção, espiritualidade e lendas pessoais que movem o mundo e inquietam a humanidade.
Somente no Brasil foram oito milhões de livros vendidos e o maior best-seller, “O Alquimista” , lançado em 1988. Paradoxalmente (ou não?) Irã e Israel são os países onde o escritor contabiliza as maiores vendas por habitante. E foi no Irã, dia 19 passado, o lançamento mundial de “O Zahir”, uma estratégia de seus agentes para minimizar a pirataria de seus livros naquele país. A Rocco está colocando em 83 países, 8 milhões de exemplares em 42 línguas. No Brasil, são 320 mil exemplares, um recorde nacional.
O título vem de um conto homônimo do escritor argentino Jorge Luis Borges em seu livro “O Aleph”. Zahir tem origem islâmica e, em árabe, quer dizer visível, presente ou aquilo que não se esquece. Para Coelho, Zahir é Esther, a mulher amada que abandona o protagonista após dez anos de convivência. A narrativa principal se alicerça em grandes dramas humanos como separação, adultério, guerras, traição, a rotina e o desgaste dos relacionamentos, a amizade, a fama, a projeção internacional, a riqueza e, é claro, muitos lances envolvendo mística e espiritualidade. A mesma química usada em outros livros.
O Zahir de Paulo Coelho tem um nome: Esther, a mulher que abandonou o protagonista. Ela passa a ser uma idéia fixa, uma obsessão. O escritor relata detalhes da vida conjugal do protagonista, que no livro, não tem nome. Relembra que na adolescência seus pais o internaram em um manicômio (Verônika decide morrer, 1998), que usou drogas, foi amigo de um roqueiro e, com ele, compôs várias letras, fez o Caminho de Santiago de Compostela, é um escritor consagrado internacionalmente, rico, poderoso e crucificado pela crítica e que sofre de amor, como qualquer mortal.
O mago das palavras, transforma a dor de amor em uma metamorfose íntima, pontuada por encontros com pessoas especiais como Mikhail, um jovem do Casaquistão que, apesar da pouca idade, muda a sua maneira de lidar com o seu Zahir pessoal. Insere lendas, diálogos catárticos e a vivência de situações que irão colocá-lo diante de sua essência e não daquilo que ele criou para si próprio para ser aceito pelo mundo.
Uma fórmula que Paulo Coelho domina muito bem. Um enredo tecido com as demandas íntimas mais corriqueiras do ser humano, mas sob uma ótica pessoal e transformadora. O escritor faz o óbvio parecer milagre e cada experiência uma conspiração divina. Essa é a razão de seu sucesso.
Lenda pessoal – A diferença de “O Zahir” e os outros livros de Paulo Coelho é que ele expõe sua vida amorosa e crises existenciais, mesmo sob o disfarce de um protagonista anônimo. Depois de confessar que adorava seduzir e que se envolveu com muitas mulheres famosas ou nem tanto ( o escritor afirma que essa parte foi inspirada em outras pessoas), o protagonista faz uma radiografia dessa catarse em todas as suas fases e se permite vivenciar a dor e a compreensão do amor.
A cada livro Paulo Coelho parece expurgar os incômodos de seu passado. Em “Brida” Paulo Coelho usa uma mulher para contar uma história de busca, de magia e feitiços (que ele vivenciou em sua fase hippie). Ao lançar mão dessa estratégia ele estaria resgatando o papel do sagrado feminino, das deusas pagãs, do útero, da terra, da criação e resignificando a sensualidade e a integridade de Eva, a mãe da humanidade.
Em “O Diário de um Mago”, ele narra a história de um discípulo que estava para receber a sua espada, mas pela falta da pureza em seu coração, o seu mestre não a entregou. Por isso, o discípulo teria que percorrer uma rota sagrada, o "Caminho de Santiago de Compostela".
Tesouro oculto - Em “O Alquimista” ele conta a saga de um jovem pastor que tem um sonho repetido: fala de um tesouro oculto, guardado perto das Pirâmides do Egito. O rapaz resolve seguir seu sonho e defronta-se com os grandes mistérios que acompanham o homem desde o começo dos tempos: os sinais de Deus, a lenda pessoal que cada um de nós precisa viver, a misteriosa alma do mundo, onde qualquer pessoa pode penetrar se ouvir o próprio coração. Considerada uma das artes mais antigas e mais secretas da humanidade, a alquimia é abordada pela primeira vez através de uma linguagem acessível a leigos.
simples.
Na biografia “Confissões de um peregrino”, escrita pelo jornalista espanhol Juan Arias, ele admite ter tido experiências homossexuais. Em “Onze Minutos”, seu último livro publicado em 2003, ele escapa da temática mística e relata o cotidiano de uma prostituta. Seria Maria, a síntese das mulheres que se envolveram com o mago?
Enfim, entre santos e prostitutas, lendas, tradições, catarses, rituais, ocultismo e desejos, Paulo Coelho constrói sua saga que atrai leitores de 10 a 90 anos, ao mesmo tempo que figura como uma personalidade que transita com desenvoltura entre religiosos, políticos, chefes de Estado e que detém uma fortuna pessoal avaliada em R$ 120 milhões.
Agenda: “O Zahir”, de Paulo Coelho (editora Rocco; 320 páginas., R$ 35).