Por um novo paradigma em teologia.
A compreensão humana acerca da natureza divina só pode ser desenvolvida através de "aproximações sucessivas". A mente finita não pode, obviamente, entender o infinito. Pode captá-lo parcialmente através de sua intuição espiritual. A maior dificuldade para a percepção de Deus é o condicionamento profundamente arraigado que nós temos de que Deus é um homenzarrão sentado num trono lá no céu...ou então que Deus é um espírito.... Ou ainda que Deus é um ser... Deus não é um homenzarrão, nem um espírito e nem mesmo um ser. Deus é uma "seidade", a raiz de todo ser...a raiz de toda consciência...É o substrato básico do universo. É sujeito sem objeto, embora possa "objetificar-se" como o universo manifestado. Deus é existência pura...Amor puro... Consciência pura... Poder puro.... Mas não há ninguém (NENHUM SER) que tenha esses atributos. Eles existem per si, fora do espaço e do tempo, e impregnam tudo que existe no universo que não passa de um conjunto de expressões fenomênicas daqueles princípios puros! Como esses princípios existem fora do tempo, não tem sentido a pergunta de quando Deus surgiu e quando começou a "criar" universos. Não se pode aplicar atributos temporais a algo que existe fora do tempo. Este nosso presente universo é apenas um entre infinitos universos que existiram no passado e infinitos universos que existirão no futuro. Criar e destruir universos é algo inerente à natureza divina, mais ou menos como o ato de respirar para nós. O universo não é uma "criação" de Deus. é antes uma exteriorização de sua própria consciência que se metaboliza continuamente e ciclicamente, alternando períodos de manifestação e períodos de repouso de igual duração. Deus não está no tempo, mas suas expressões fenomênicas estão no tempo (aliás, elas são o próprio Espaço/tempo). Nos vedas há uma frase que diz "SARVAM TAT KALUVIDHAM BRAHM" (em verdade tudo isso é Brahm ). Para ter uma percepção da realidade de Deus você tem de eliminar todas as hipóteses que você enumerou acerca da natureza divina, pois todas elas são falsas! Ou antes, são "aproximações" efetuadas no passado para mentes ainda primárias e amedrontadas, que precisavam de um "Pai Protetor". Mas se é difícil assimilar este conceito de Deus em sua realidade transcendente, é mais fácil entender o conceito dos LOGOS que é "Deus" em sua realidade imanente, que está dentro de uma escala, mas próxima à compreensão humana. Deus como o princípio supremo é absolutamente impessoal e incompreensível, mas os LOGOS, os devas, os anjos e os homens iluminados são de certa forma pessoais e mais fáceis de serem entendidos, embora quanto mais evoluam, mais se tornem CANAIS DE EXPRESSÃO daqueles princípios puros, tendendo, portanto, à uma crescente impessoalidade ! Todos nós seres humanos nos tornaremos LOGOS em universos futuros e criaremos nossos próprios sistemas solares. Os LOGOS são seres que viveram em universos passados tudo que passamos hoje, em formas similares às nossas, mas sua consciência se expandiu tanto que podem ser considerados "deuses" dentro de seu respectivo sistema solar. Nosso sistema solar é a corporificação de um desses LOGOS cósmicos que criou tudo que existe dentro dele. Em essência esse LOGOS tem a mesma natureza que nós temos, a diferença é que sua consciência é alguns milhões de vezes mais ampla do que a nossa. Comparado com o LOGOS nós somos como amebas... Mas comparando o LOGOS com o Deus Único e supremo do universo, Ele é que seria como uma ameba. Cada sistema estelar tem seu próprio LOGOS que vive na evolução cósmica. Como a evolução da consciência não tem limites, é óbvio que temos que atravessar muitas etapas em vôo cego onde as causas e efeitos são regidos pela lei do karma, mas o karma não é uma lei mecânica e nem é um "castigo" para os nossos erros. O Karma é parte de uma lei maior que faz com que tudo no universo retorne ao seu ponto de origem para ser NEUTRALIZADO, ou seja, reduzido ao estado NEUTRO, visto que todas as forças colocadas em ação perturbam o equilíbrio original do cosmos e tem de ser neutralizadas. Isso se processa em um equilíbrio dinâmico onde tudo afeta o todo e tudo é afetado pelo todo.
Luciano Rabelo - teósofo
* Ilustração: Claudio Salvio.
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