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A evolução da yoga pelos séculos.

Ana Elizabeth Diniz

Há milhares de anos, do outro lado do mundo, o deus Shiva ensinava à sua belíssima esposa Parvati os primeiros movimentos do yoga. Tão envolvido ele ficava em ensinar que não percebeu que todos os dias, um peixe observava, silenciosamente e atentamente, as suas explicações. Quando Shiva chegou ao fim das aulas, foi embora e nunca mais voltou naquele local com sua amada. O peixe sentiu tanto a sua falta que começou a imitar os seus movimentos e se transformou em um homem. Essa é uma lenda védica, legada pelo povo indiano e que valida a teoria de que o homem surgiu das águas.

Yoga é uma palavra sânscrita “yug” que significa unir, comungar, ligar o homem à sua própria e íntima realidade. É um sistema filosófico, uma ciência de vida que pretende levar o indivíduo a um estado de harmonia, devolvendo-lhe a paz e a serenidade, através do encontro com seu universo interior, permitindo-lhe uma perfeita integração de si com o universo exterior.

“A prática da yoga induz a um sentimento básico de medida e proporção. Está voltada ao nosso próprio corpo. A prendemos a tocá-lo, tirando dele a ressonância e a harmonia máximas, com inabalável paciência, aprimoramos e animamos cada célula ao voltarmos diariamente ao ataque, desencadeando e liberando capacidades, de outro modo condenadas à frustração e à morte”, ensina Maria José Marinho, uma das precursoras do yoga em Belo Horizonte, há mais de 40 anos.

A prática é um dos seis sistemas ortodoxos da filosofia hindu. “Foi sistematizada por Patanjali em sua obra clássica, “Os Yoga Sutras”, que consistem em 185 aforismos. No pensamento hindu, tudo é permeado pelo espírito universal supremo (Paramatman ou Deus) do qual o espírito humano individual (Jivatman) é parte. O yoga ensina os meios pelos quais o Jivatman pode ser unido ou entrar em comunhão com o Paramatman, garantindo a libertação (moksha)”, diz a professora.

O conhecimento da unidade cósmica

Vera Filizzola

O Gnana Yoga é a origem da Gnose - o conhecimento direto da nossa verdadeira identidade, da sabedoria, no sentido de "SOPHIA" e, não, da erudição. È o conhecimento da unidade cósmica universal, do uno no diverso – universo - através do nosso autoconhecimento.

Quem não conhece a si mesmo não pode conhecer coisa alguma. Sri Ramana Maharishi, juntamente com Krishnamurti, foi um dos grandes Gnani do século passado. Ele preconizava o uso da pergunta “Quem sou eu?” como facilitadora dessa dificílima tarefa. A resposta seria uma contestação: “Neti, Neti ( isto não, isto não)”. Isso não é o Atman , o átomo divino, quem sou eu em realidade.

O filósofo e gnani inglês, Paul Brunton, achou por bem modificar essa pergunta para " O quê sou eu?” por julgá-la mais abrangente. Nos seus livros sobre o yoga da sabedoria, o yogue Ramacháraka preconiza o conhecimento a respeito do universo, na medida do possível, porque somos esse universo, temos em nós um pouco das estrelas, dos sóis, planetas e de todo o cosmos, descemos até mesmo ao mínimo dos grãos de areia terrestre e de todo o oceano de onde se originaram. Dentro da nossa "consciência primária", somos os vegetais , animais e todas as coisas criadas, pois tudo é um!

“Nós fazemos o universo autoconsciente", diz o físico quântico-teórico Amit Goswami, "O universo é o maior laboratório de evolução de consciências", exemplifica ele. Eis aí o significado do universo: a evolução de consciências.

Após a descoberta do Atman, vivencialmente e, não, teoricamente, o gnani está pronto para seguir adiante, "além do Yoga", adentrando a "filosofia do incognoscível".

Paul Brunton recebeu esse ensinamento em partes, viajando por todo o Oriente. Essa filosofia revela as respostas às perguntas conflitantes: desde o porquê das guerras, da miséria, dos sofrimentos até a existência da mente universal, a grande consciência cósmica, o um, origem de tudo o que há e a sua forma de ação como universo manifesto.

"Aquele que enxergar a unidade em tudo, só a ele, só a ele, será dada a verdade", profetizou Jagadis Chandra Bose, pluricientista, inventor e gênio. E neste ponto, acabamos de terminar uma boa meditação nos moldes do Gnana( ou Jnana) Yoga.

As origens do tantrismo

Cristina Winter
Professora de tantra yoga

O tantra não é apenas um ramo do yoga, nem tão pouco uma filosofia isolada. Na verdade, ele é o auge de longa experimentação envolvendo corpo, mente e espírito e de amplo processo de assimilação e síntese do pensamento da Índia. Derivado do verbo tantori que significa tecer, tantra é um termo sânscrito que significa a essência, a busca da integração do homem comum com sua unidade.

O homem comum é dual, está em conflito todo tempo buscando e buscando. Na linguagem atual podemos dizer que o homem tem consumido coisas sem o menor sentido paras sua essência. Por isto esta atitude de estar sempre se sentindo insaciável. As práticas tântricas levam o indivíduo a conhecer a sua dualidade e sentir a importância da unidade dentro de si. Shiva e Shakti, a energia masculina e feminina, dançam no corpo do homem e na sua mente quase toda a existência,criando e destruindo até encontrar a unidade onde o conflito desaparece. Desta forma, podemos perceber o tantra nas artes, nas danças, nos rituais de todos os povos. O enfoque dado à energia sexual é devido à base da nossa existência aqui. A sexualidade é nosso ponto de partida nesta vida. Nossa vida se inicia através do sexo e nós nos definimos em todos os níveis numa sociedade e como personalidade a partir do sexo. O ato sexual deve ser visto como o encontro sagrado entre dois seres que estão ali retornando ao princípio da existência. Quando nós estamos num ato sexual estamos revivendo o ponto através do qual entramos na vida. Devemos reverenciar este momento como se nós estivéssemos cumprimentando a nós mesmos. É impossível afirmar-se quando surgiu e de onde se originou o tantra yoga. Via de regra sabe-se que foi de forma empírica, sendo codificado oral e secretamente, na tradicional maneira de sucessão discipular.

Nos ensinamentos atuais do tantra yoga os alunos aprendem a assimilar o mundo através de exercícios respiratórios, alongamentos, percepções auditivas, sinestésica e outros. É como o artista observa o mundo, mais assimilando do que racionalizando ou criando um julgamento precipitado. A compreensão do movimento energético da kudalini que sobe pela coluna e desperta a consciência através dos chakras é vivenciada. Os alunos aprendem sobre mudras, mandalas, mantras e geometria sagrada.

Sendo o yoga um legado do Oriente, fica sempre uma pergunta no ar: qual o melhor método? “Na realidade, cada ser humano é seu próprio caminho. O yoga se refere a inúmeros caminhos, Nós devemos tentar compreender os nossos próprios valores interiores e procurar seguir o caminho que mais nos convém. Por isso é importante que façamos “vichara” , uma auto-investigação, nos observando a cada instante com sinceridade, diante de quaisquer situações da vida”, aconselha Maria José Marinho.

Em sua Clínica Ponto de Equilíbrio, a professora ensina vários tipos de yoga. O mais clássico e popular é conhecido como hatha yoga, a preparação para yogas mais elevados. Ha significa "Sol" e Tha significa "Lua". Assim, Hatha Yoga refere-se às correntes positivas (Sol) e negativas (Lua) no sistema, que devem ser balançadas e unidas de forma a que a força vital, prana, consiga ser regulada e a mente limpa a fim de se experimentar estados super-conscientes.

De acordo com Maria José, a hatha-yoga é conhecida como ciência da saúde perfeita porque dissolve todos os problemas (sankaras) e impressões que vão se alojando no consciente e subconsciente em forma de traumas, conflitos e fobias. Esse tipo de yoga permite que a pessoa volte ao passado sem sofrimento, sem elaborações mentais, simplesmente através do som, dos mantras. “O que uma pessoa leva seis meses para resgatar nas terapias clássica, consegue em apenas seis meses de yoga”.

A hatha yoga trabalha com as posturas invertidas de equilíbrio, que permitem a percepção da atuação dos opostos, dos preconceitos, separativismos e medos, de uma forma “suave e tranqüila, levando a maior equilíbrio na vida. Ao praticarmos os âsanas que exigem maior flexibilidade, notamos que só atingiremos um ponto ótimo ao soltarmos ou relaxarmos completamente o corpo. A vida é extremamente dinâmica e, quando não acompanhamos esse dinamismo, vamos nos tornando rígidos e inflexíveis. Ser flexível é compreender a lei da impermanência, pois tudo no universo está em constante mutação, é aprendermos a nos soltar, relaxar diante da vida”, diz Maria José.

Já a laya yoga utiliza determinados tipos de respiração que levam o pensamento e a atenção para o ajna, chacra conhecido como terceiro olho ou olho de Shiva e que os parapsicólogos chamam de percepção extra sensorial. “Através do yantra, triângulo azul que significa equilíbrio, harmonia e perfeição, e de respirações específicas, a pessoa se esquece do mundo lá fora e se volta para si mesma, conseguindo um relaxamento muscular e nervoso profundos, muitos superior àquele conseguido através da hipnose. Mantras sagrados são falados e os sons deflagram um processo de libertação dos desejos, traumas, neuroses e medos inconscientes. Na seqüência, a pessoa constrói um novo programa mental de positivismo, de esperança”. (AED)

Aquecer para melhorar a energia vital

Para quem gosta de exercitar o corpo o ideal é a power yoga, uma derivação da astanga yoga, que prioriza a teoria dos oito princípios. A professora Nízia Martins, formada em 1993 na cidade de Vigo, Espanha, com cursos de especialização na Índia, explica que a power yoga trabalha com os âsanas (exercícios inspirados pelos deuses), juntamente com os pranauamas (respirações específicas) a fim de propiciar o calor necessário para se criar um novo campo de energia no corpo.

“Quando aquecido através de alongamentos e exercícios de força e equilíbrio, o corpo se transforma, se purifica, permitindo a entrada de energias novas e positivas que desfazem os bloqueios, o estresse e eliminam as doenças”.

A ordem é suar. Uma aula de power yoga dura uma hora e 30 minutos de muita atividade. Nízia começa mostrando a importância do reaprender a respirar. Em seguida ela não dá trégua. Vai passando de um exercício para o outro, visando o aquecimento e a transpiração, a fim de eliminar toxinas e possibilitar um novo fluxo energético. Nesse momento acontece o equilíbrio das polaridades yin e yang.

Depois são praticados os âsanas específicos que estimulam os diversos sistemas do corpo, alongam a musculatura, fortalecem os “adharas”, conhecidos como suportes do corpo (joelhos, tornozelos, quadril, ombros e pulsos). Finalmente, a professora conduz a um estado de concentração que leva à meditação (dhyana).

A power yoga estimula o funcionamento do intestino e dos sistemas, principalmente o digestivo, respiratório e renal, ajudando na eliminação de líquidos, problemas sexuais, impotência, menstruação e TPM. Tem boa atuação sobre as emoções uma vez que ativa a energia vital e equilibra os chacras.

Tipos de Yoga

RAJA YOGA: domínio amplo da mente

Sistema codificado pelo sábio Patânjali, consistindo de oito passos: yamas (harmonização do homem com a sociedade), niyamas (harmonização interna do homem com ele mesmo), âsanas (exercícios físicos), pranayama (exercícios respiratórios), pratyahara (abstração e interiorização dos sentidos), dharana (concentração da mente), dhyana (meditação) e samadhi (estado em que se destruiu a ignorância de nossa verdadeira natureza).

JÑANA YOGA,realização da sabedoria

Caminho que busca atingir a união pelo constante discernimento entre o real e o irreal, ou seja, através do estudo, do questionamento e da contemplação percebemos a presença de Deus em nós.

KARMA YOGA, ação desinteressada

É o resultados das ações individuais. Quando oferece os frutos de suas ações, o indivíduo consegue agir de maneira totalmente desinteressada e atinge a união pelo servir.

BHAKTI YOGA, realização devocional amorosa

Caminho que trabalha a afetividade, buscando a união com Deus através do amor, da devoção e da renúncia. Consiste de práticas como o canto e a adoração.

HATHA YOGA, domínio psicofísico

É o mais conhecido dos Yogas. Trabalha o corpo através das âsanas, (posturas) e pranayamas (exercícios respiratórios).

TANTRA YOGA, realização do conhecimento

Segundo os textos clássicos, é um método para se atingir o equilíbrio dos chakras, centros sutis de energia.

ASTANGA YOGA , contemplação dos oito princípios

Método de ioga de Patanjali apresentado em oito itens: yamas, niyamas ( atitudes a serem evitadas ou praticadas), âsanas (posturas para controlar o corpo físico e a atividade mental), pranayamas (controle respiratório) , pratiahara, dharana, dhiana, samadhi (ioga interna que abrange diferentes graus de atenção e concentração, levando à meditação).

* Ilustração: Claudio Salvio.

 
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