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O sábio da Índia e o um Original.

Um belo conjunto de prédios de arenito roxo acinzentado, construído segundo o modelo clássico da Índia pré-muçulmana, ergue-se em quatro acres de terra na costa oriental do subcontinente indiano, em Bengala. Este conjunto arquitetônico muito belo é conhecido como o Templo hindu da ciência e exibe a seguinte inscrição: "Aos pés de Deus, este templo é dedicado a alcançar honra para a Índia e felicidade para o mundo".
Na realidade, este edifício que foi qualificado como sendo o templo hindu da ciência, foi construído por um indiano de genialidade inavaliável, um físico, químico e graduado em ciências botânicas. Seus mestres possuíram o quilate de um Lord Rayleigh, o descobridor do argônio na atmosfera, e Francis Darwin, filho do Darwin, o evolucionista. Seu nome, Sri Jagadis Chandra Rose, bacharel em ciências pela Universidade de Londres e professor de física no melhor dentre todos os "colleges" hindus -Colégio da Presidência de Calcutá - Bose construiu o conjunto, hoje conhecido como o Templo da Ciência. Os prédios constituíam o seu Instituto de Pesquisas onde uma das tônicas era a fisiologia vegetal. A apreciação sobre esta especialidade nas áreas científicas onde atuou, é dada pela Enciclopédia Britânica - "Bose fora tão avançado em relação à época a ponto de tornar impossível uma avaliação precisa do seu trabalho".
No ano de 1894, Chandra Bose resolveu se dedicar às tentativas de aperfeiçoamento dos aparelhos inventados por Heinrich Rudolph Hertz, os transmissores das chamadas ondas hertzianas, ou ondas de rádio. Marconi, nesta época, fazia esforços e tentativas da transmissão de sinais elétricos sem fios , pelo espaço (em Bolonha) e Bose, na Índia, já obtivera o pleno sucesso nesta empreitada. No ano de 1895, um ano antes de Marconi obter a sua patente, Bose em uma solenidade em Calcutá, presidida por Sir Alexandre Mackenzie - governador de Bengala - transmitiu ondas elétricas do salão de conferências, atravessando três paredes e o corpo balofo do próprio Sir Mackenzie, para um local a 20 mts. de distância. Estas ondas desarmaram um relé, impulsionando uma pesada bola de ferro e disparando um revolver que detonou uma mina.

Foi nesta época exata que esta e outras realizações do genial cientista hindu, começaram a chamar a atenção da Real Sociedade Britânica. Lord Rayleigh que já era, entretanto, seu admirador incondicional, começou a incentivar o seu ex-aluno à publicação dos seus trabalhos. Inclusive lhe ofereceu ajuda financeira, para o progresso da ciência> Seguiram-se escaladas do nome do jovem cientista hindu e ele foi convidado a dar palestras para a elite científica de então nos seus "templos do saber" e às publicações dos seus trabalhos assombravam os próprios sábios: na revista Nature, Anais da real Sociedade, Spectator, Times, etc.

Uma descoberta notável

Em 1899, Bose descobriu a "fadiga" dos metais e a sua recuperação por um processo semelhante ao que acontece com os seres humanos e animais. O cientista, perplexo, começou a se perguntar, se de fato a fronteira entre os metais considerados inanimados e os organismos vivos seria assim tão clara. Com a sua versatilidade, Bose deixou a física para trás e mergulhou na fisiologia com um "estudo comparativo das curvas de reação moleculares em substâncias inorgânicas e em tecidos animais vivos".
Espantosamente, as curvas apresentadas pelo óxido de ferro magnético levemente aquecido, apresentaram-se à sua observação atenta como muito semelhantes às dos músculos. A fadiga podia ser rechaçada e a recuperação adquirida, fazendo-se o uso de massagens leves ou imersão em um banho quente. Outros componentes metálicos procederam de forma semelhante. Durante estas experiências, que foram inúmeras e com resultados que raiam à ciência ficção, Bose providenciou uma experiência de "envenenamento" dos seus metais. Perplexo, descobriu que a reação era análoga às reações dos tecidos musculares aos venenos.

Conclusão de Chandra Bose

No seu trabalho "De la généralité des phénomènes moleculaères produits par l'electricité sur la matière inorganique et sur la matière vivante", dirigido ao Congresso Internacional de Física na exposição de Paris, de 1900, alocou ênfase em afirmar que "a unidade é fundamental entre a aparente diversidade da natureza... É difícil traçar uma linha e dizer aqui termina o fenômeno físico e além começa o fisiológico". O congresso e os congressistas ficaram aturdidos.

Foi a partir dos metais que o genial Chandra Bose, do qual estamos expondo um exíguo resumo das suas descobertas e capacidade científica, se interessou pelos "seres verdes da natureza".
As plantas não possuíam sistemas nervosos e eram consideradas irresponsivas. Talvez homenageando o seu amado país, Bose iniciou suas pesquisas com o "castanheiro da Índia", descobrindo que a sua reação a golpes era em tudo semelhante às dos metais e dos músculos. Chandra Bose pediu então ao seu verdureiro, que lhe enviasse cenouras e nabos. Mesmo conservando as suas atitudes externas de frieza e apatia, esses vegetais se mostraram altamente sensitivos. O cientista resolveu anestesiar as plantas com clorofórmio e suas reações à anestesia e à recuperação quando levadas ao ar fresco, foram idênticas às dos animais. Bose tornou-se o primeiro paisagista-jardineiro, quando empregou o clorofórmio para anestesiar um pinheiro, desenraiza-lo e replanta-lo, sem dano algum para a sua saúde.

Houve então um episódio importante, ocorrido durante a visita de Sir Michael Foster da Real Sociedade, ao laboratório do cientista. O lorde estava curioso em bisbilhotar o que fazia Chandra Bose, solitário, no seu laboratório de onde saiam descobertas tão desconcertantes para a ciência estabelecida. Aquele "caldeirão de feiticeiro" o aguardava, porém, com mais uma das suas estrepolias mágicas inacreditáveis.
Bose mostrou algumas evidências ao tarimbado veterano de Cambridge e este, após examinar as conclusões do cientista em um determinado trabalho ao qual se dedicara, usou da ferina ironia própria dos céticos ferrenhos: "Que novidade há nessa curva, meu caro Bose? Há pelo menos meio século que a conhecemos"!
Que lhe parece ser ela? Perguntou-lhe tranqüilamente Bose. Ora, essa é uma curva de resposta muscular - irritou-se Foster. Não me leve a mal, humildemente tartamudeou Bose, mas na verdade trata-se de uma resposta do ESTANHO!
Foster sentou-se assustado. "O que? Exclamou histérico: "estanho"? Foi realmente, estanho que você disse?"
Foster desmantelou-se quando Bose lhe apresentou todos os seus resultados. Na mesma hora, Bose recebeu o convite para apresentar a sua descoberta na Real Sociedade, em Londres, aos seus decanos, à nata da comunidade científica de então, para garantir-lhe a prioridade.
Esta apresentação ocorreu em 10/05/1901 e Bose, após historiar metodicamente as suas experiências com o estanho durante quatro anos, oferecendo à platéia os maiores detalhes, muito pormenorizadamente, concluiu:

"Tive oportunidade de lhes mostrar nessa noite registros autográficos da história da tensão e do esforço no vivo e no não vivo. Como são semelhantes os traçados! Tão semelhantes, de fato, que é inútil tentar fazer distinção entre eles. Lidando com tais fenômenos, como traçarmos uma linha de demarcação e dizer aqui termina o físico e além começa o fisiológico? Não, não existem as barreiras absolutas.
Foi quando me deparei com o mudo testemunho desses registros autônomos e neles percebi uma fase da unidade abrangente que sustenta em seu âmago todas as coisas - as partículas que dançam sob um raio de luz, a vida fecunda que reveste o planeta, os sóis radiantes que brilham sobre nós - foi então que pela primeira vez compreendi um pouco da mensagem proclamada por meus antepassados às margens do Ganges há 30 séculos: "Àqueles que na mutação incessante do universo vêem apenas uma coisa, e só a eles, só a eles, pertence a Verdade Eterna". Sri Jagadis Chandra Bose. - A Vida Secreta das Plantas - Tompkins e Bird - página. 101.
A conclusão de Bose é uma verdadeira e inolvidável peça literária que, além da sabedoria e metafísica nela expostas, é de um cunho poético digno de qualquer antologia!

A douta assistência aplaudiu unanimemente Sri Jagadis e não fez ilações desmerecedoras à metafísica incluída no texto. Sri William Crookes exigiu, inclusive, a inserção da citação conclusiva na publicação da palestra. Bose recebeu, também, as congratulações entusiasmadas de uma das maiores autoridades mundiais em metais, Sir Roberto Austen. Bose estava radiante: "passei a vida inteira estudando as propriedades dos metais e alegro-me em pensar que são dotados de vida".

Um ex professor de Bose, Sidney Howard Vines, afamado fisiologista vegetal e botânico de Oxford, em pessoa, deu-se ao trabalho de ir constatar os trabalhos de Bose com os vegetais. Expressou-se assim: "Huxley daria anos de sua vida para ver essa experiência".Huxley, ou T. H. Huxley pertenceu ao departamento do Museu Britânico em Santa Kensington e foi um dos grandes "experts" das áreas da botânica e fisiologia vegetal. O filósofo Herbert Spencer, agradecendo o presente feito a ele, um livro de Bose, lamentou que já era tarde para ele, aos 83 anos, incorporar ao seu"Princípio da Biologia", alguns dados fornecidos pelo sábio hindu.

O próximo passo do cientista, foi o exame das "mudanças invisíveis que ocorrem nas plantas e saber se ficam excitadas ou deprimidas". Em busca destas respostas, ele imaginou que seria necessário medir visualmente, as respostas aos "golpes experimentais definidos" ou choques.

"Para chegarmos a um resultado satisfatório, temos de descobrir a força compulsiva que há de levar a planta a um sinal de resposta. Feito isto, será preciso obter meios para a automática conversão desses sinais numa escrita inteligível. Por fim, temos de ensinar a nós mesmos, a natureza desses hieróglifos". Bose.

Este é o roteiro traçado para as décadas seguintes. Fazendo uso de um complicado aparelho que inventou, Bose foi capaz de demonstrar o comportamento semelhante ao dos animais, dos movimentos de órgãos dos vegetais ignorados pela ciência: peles de sapos, lagartos e tartarugas, cascas de uva, tomates e frutos, todos eles reagiram de forma semelhante. E também algumas analogias importantes entre uns e outros: órgãos digestivos das plantas insetívoras semelhantes aos órgãos digestivos animais. Reação igual à luz, tanto pelas retinas animais quanto pelas folhas dos vegetais. A fadiga vegetal é semelhante à do animal quando recebe estimulações, a exemplo das que são infligidas à musculatura animal.

Examinando a "planta-telégrafo" (Desmodium Gyrans) cujas folhas simulam os movimentos dos braços da sinalização semafórica, Bose descobriu que o veneno que interrompe esta movimentação também faz parar o coração de um animal. O seu antídoto, em um e outro caso, restaura a vida de todos estes organismos.

Plantas alcoólatras

Bose encontrou respostas conclusivas de que as plantas se embebedam também com o gim, uísque e outros tipos de bebidas alcoólicas, e de que sob o efeito do álcool cambaleiam como cambaleiam os seres humanos e os animais e aves sob o mesmo estímulo. Também sofrem "ressaca" posterior e necessitam ser ajudadas a se recomporem.
Era crença generalizada de que o dióxido de carbono é necessitado pelas plantas, Bose descobriu que o seu excesso é mortal e que para não morrerem as plantas, como nós mesmos, necessitavam ser revitalizadas com o oxigênio.
Outra coisa importante: no momento da sua morte, uma planta que Bose examinava descarregou uma considerável força elétrica. O cientista calculou que quinhentas ervilhas, descarregando toda esta eletricidade, poderiam gerar 500 volts e que se conectadas em série, fulminariam o cozinheiro. Todas estas descobertas e muitas outras, foram compiladas em dois volumes compactos em 1906 e 1907: "A resposta vegetal como um meio de investigação fisiológica" - 781 págs. São 315 experiências detalhadas e que vão de encontroa uma crença arraigada, Bose as sintetizou assim: "Dada a analogia plausível do disparo de um revólver pela pressão no gatilho, ou do funcionamento de um engenho a combustão, tornou-se costumeiro supor que todas as respostas a estímulos sejam da natureza de uma mudança química explosiva, acompanhada de um inevitável esgotamento de energia."
Bose experienciara no seu laboratório o contrário: o movimento nas plantas, a subida da seiva e o seu crescimento provinham da energia absorvida por elas do ambiente, e que elas a armazenavam ou mantinham de forma latente para um uso futuro, como fazemos nas nossas despensas.

Bose descobriu que as plantas possuem nervos e esta foi a suprema blasfêmia para os botânicos de então!
Tudo isto era muito revolucionário e causava a hostilidade dos botânicos contra Chandra Bose. Bose, deixando-se levar pela sua genialidade, lançou outro livro: Eletrofisiologia Comparada, mais de 321 novas experiências detalhadas, todas elas revolucionárias e que agrediam os conhecimentos científicos conhecidos na época. A revista Nature mostrou-se engasgada com as novidades: "Na verdade o livro está cheio de idéias interessantes habilidosamente encadeadas e seria recomendável como de grande valor, caso não despertasse continuamente a nossa incredulidade... O estudioso de fisiologia vegetal que já esteja familiarizado com as principais idéias clássicas sobre o assento, logo se deixará possuir por uma grande estranheza ao folhear este livro (o 2º livro). Ele se desenvolve harmônica e logicamente, muito embora não parta de nenhum ponto existente no corpus de conhecimento atual e nunca revele traços de uma firme aderência. Essa impressão de alheamento é aumentada pela completa ausência de referência precisa ao trabalho de outros investigadores".

Quem se levantaria, então, até o gigantismo de Chandra Bose, para refutá-lo? Ninguém estava apto para esta função. O crítico da Nature, cristalizado na ciência compartimentalizada de então, muito menos, ele desconhecia a honra e estar lidando com a genialidade, com um gênio meio século adiante do seu tempo!
Neste resumo seria impossível esgotar todas as descobertas feitas por Sri Jagadis Chandra Bose cujo nome, hoje em dia, é honrado por uma das grandes universidades da Índia: Universidade Sri Jagadis Chandra Bose (dedicada à medicina ayurvedica hindu).

Inferências

"A morada ampla da natureza se compõe de várias alas, cada qual com o seu pórtico. O físico, o químico e o biólogo nela ingressam por diferentes entradas, que correspondem, uma a uma, a seus campos de conhecimento e terminam por achar que o domínio especial de cada um não tem nenhuma conexão com o outro, Disso procede a divisão que atualmente fazemos entre os fenômenos dos mundos inorgânicos, vegetal e senciente. Tal atitude filosófica do espírito pode ser negada. Devemos ter em mente que todas as buscas têm por alvo um mesmo objetivo: o alcance do conhecimento em sua inteireza". Sri Jagadis Chandra Bose.

"Do menor ao maior dos biólogos vivos" - Dedicatória de um livro presenteado a Bose por George Bernard Shaw

"Que é a história de Aladim e sua lâmpada maravilhosa, comparada às possibilidades do cresçógrafo do Dr. Bose? Em menos de 15 minutos, a ação de fertilizantes, nutrientes, correntes elétricas e vários outros estimulantes pode ser totalmente determinada". Scientific American.


"Nada de mais fiel ao gênio da Índia que o pesquisador desses passos muito mais decididos que os nossos em direção à unidade, tentasse correlacionar as respostas e a expressão da memória dos seres vivos a seus análogos na matéria orgânica e visse, antecipadamente, as linhas da física, da fisiologia e da psicologia convergindo e se encontrando. Tais são as especulações desse príncipe dos experimentadores". Prof. John Arthur Thomson para o New Statesman.

A crítica que transgride os limites da imparcialidade inevitavelmente estorva o progresso do conhecimento". Chandra Bose.

"No cientista europeu, o preparo da mente para a interpretação da natureza deixou-se acompanhar não raro por uma inibição do sentimento da beleza. Darwin lamentou amargamente o fato de sua investigação biológica ter atrofiado pro completo sua capacidade de apreciar a poesia. Mas com Bose dá-se o contrário". Romain Rolland autor de Jean Christophe, onde apôs a dedicatória - "Ao revelador de um mundo novo" - dedicada a Chandra Bose.

Fontes:
A Vida Secreta das Plantas - Tompkins e Bird
Citações: pertencentes ao mesmo volume. Ed. Expressão e Cultura
Observação: Recomendamos sua leitura atenta.
* Ilustração: Claudio Salvio.

 
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