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Ceticismo Aberto - Parte 1

O FUTURO EVOLUTIVO DO HOMEM

UMA VISÃO BIOLÓGICA DO PROGRESSO

por Richard Dawkins, Economist, 1993, pp 87.



A evolução é amplamente considerada como uma força progressiva impulsionando inexoravelmente uma melhoria racial que pode ser vista como oferecendo um pouco de esperança tangível para nossa espécie com problemas. Infelizmente este modo de pensar está baseado em dois enganos. Primeiro, não está de forma alguma claro que a evolução é necessariamente progressiva. Segundo, até mesmo quando ela é progressiva, mudança significativa procede em uma escala de tempo muitas ordens de magnitude maiores que a escala de dezenas ou centenas de anos com que os historiadores se sentem confortáveis.

Nós podemos definir progresso evolutivo seja dentro um modo 'valor-carregado' ou em um com valor-neutro -- ie, com ou sem embutir noções do que é bom ou ruim. Uma definição com valor-carregado especifica se o fator sendo monitorado, seja tamanho do cérebro, inteligência, habilidade artística, força física ou o que for, é desejável ou indesejável. Se um fator desejável aumenta, isso é progresso. Mas em uma definição de valor-neutro, qualquer mudança conta como progresso contanto que continue em seu curso. Tal definição simplesmente toma três entidades em uma seqüência de tempo -- pense nelas como uma série de fósseis ancestrais e chame-as de Antes, Durante e Depois [Early, Middle and Late] -- e pergunta se a mudança de Antes para Durante está na mesma direção que a mudança de Durante para Depois. Se a resposta for sim, isso é uma mudança progressiva. Esta definição é valor-neutra porque o fator que nós descobrimos ser "progressivo" pode ser algo que nós consideramos como ruim -- digamos, ócio ou estupidez. Neste senso de valor-neutro, uma tendência continuada para um tamanho de cérebro diminuído seria progressiva, da mesma maneira que uma tendência para um tamanho de cérebro aumentado seria. A única coisa que não seria progressiva seria uma reversão da tendência.

Já foi moda para biólogos acreditar em algo chamado ortogênese. Esta era a teoria de que tendências em evolução constituem uma força motriz e continuam sob seu próprio impulso. Pensava-se que o alce irlandês tinha sido levado à extinção por seus chifres enormes, que por sua vez pensava-se que tinham crescido maiores sob influência de uma força ortogenética. Talvez inicialmente houvesse um pouco de vantagem em chifres maiores e foi assim que a tendência começou. Mas uma vez iniciada, a tendência tinha sua própria inércia interna e, com o passar das gerações, os chifres continuaram crescendo inexoravelmente até que levaram a espécie à extinção.

Nós pensamos agora que a teoria de ortogênese está errada. Se uma tendência é notada para um tamanho de chifre crescente, isto ocorre porque a seleção natural favorece chifres maiores. Veados individuais com chifres grandes têm mais descendência que veados com chifres de tamanho médio, seja porque eles sobrevivem melhor (improvável) ou atraem fêmeas (provavelmente irrelevante) ou porque eles são melhores em intimidar rivais (provável). Se a tendência parecer persistir por muito tempo no registro fóssil, isto indica que a seleção natural estava impulsionando naquela direção por todo aquele tempo. Metáforas como "força inerente" e "impulso inexorável" não têm nenhuma validez.

Parece se seguir que não há nenhuma razão geral para esperar que evolução seja progressiva -- até mesmo no senso fraco, de valor-neutro. Haverá tempos em que o aumento de tamanho de algum órgão é favorecido e outros tempos quando um tamanho menor o é. Na maior parte do tempo, os indivíduos de tamanho médio serão favorecidos na população e ambos extremos serão penalizados. Durante estas épocas a população exibe estase evolutiva (ie, nenhuma mudança) com respeito ao fator sendo medido. Se nós tivéssemos um registro fóssil completo e procurássemos tendências em alguma dimensão particular, como comprimento de pernas, nós esperaríamos ver períodos de nenhuma mudança alternando-se com continuações espasmódicas ou reversões em direção -- como uma biruta ao vento em um tempo tempestuoso.

É ainda mais intrigante descobrir que às vezes tendências longas e progressivas em uma direção de fato ocorrem. Quando um órgão é usado para intimidação (como os chifres de um veado) ou para atração (como o rabo do pavão), pode ser que o melhor tamanho a possuir -- do ponto de vista de intimidação ou atração -- sempre é ligeiramente maior que a média na população. Até mesmo quando a média se torna maior, o ótimo sempre é estar um passo à frente. É possível que tal "seleção com ponto-final em movimento" realmente tenha levado o alce irlandês à extinção: ao levar o "ponto ótimo de intimidação" muito à frente do que teria sido o "ponto utilitário ótimo" global. Pavões e pássaros do paraíso machos também parecem ter sido impulsionados, neste caso através da seleção do gosto feminino, para longe do ponto utilitário ótimo de um vôo eficiente e maquinaria de sobrevivência (entretanto eles não foram levados além do precipício rumo à extinção).

Outra força conduzindo a evolução progressiva é a chamada "corrida braço-a-braço" [arms-race]. Presas evoluem velocidades de corrida mais rápidas do que as de predadores. Por conseguinte predadores têm que evoluir velocidades de corrida ainda mais rápidas, e assim por diante, em uma espiral ascendente. Tal competição provavelmente responde pela engenharia espetacularmente avançada de olhos, orelhas, cérebros, "radares" de morcegos e todos outros armamentos de alta tecnologia que animais exibem. Corridas braço-a-braço são um caso especial de "co-evolução". Co-evolução acontece sempre que o ambiente no qual as criaturas evoluem está em si evoluindo. Do ponto de vista de um antílope, leões fazem parte do ambiente assim como o clima -- com a diferença importante de que leões evoluem.


Progresso virtual

Eu quero sugerir um tipo novo de co-evolução que, acredito, pode ter sido responsável por um dos exemplos mais espetaculares de evolução progressiva: o aumento do cérebro humano. Em algum ponto na evolução de cérebros eles adquiriram a habilidade para simular modelos do mundo externo. Em suas formas avançadas nós chamamos esta habilidade de "imaginação". Pode ser comparada ao software de realidade virtual que roda em alguns computadores. Agora aqui está o ponto que eu quero fazer. O "mundo virtual" interno no qual os animais vivem pode em efeito se tornar uma parte do ambiente, de importância comparável ao clima, vegetação, predadores e assim por diante. Nesse caso, uma espiral co-evolutiva pode decolar, com hardware -- especialmente hardware cerebral -- evoluindo para se ajustar a melhorias no "ambiente virtual" interno. As mudanças em hardware estimulam então melhorias no ambiente virtual, e a espiral continua.

É provável que a espiral progressiva avance até mais rapidamente se o ambiente virtual é reunido como um empreendimento compartilhado que envolve muitos indivíduos. E é provável que alcance velocidades alucinantes se puder se acumular progressivamente com as gerações. A linguagem e outros aspectos da cultura humana fornecem um mecanismo por meio do qual tal acumulação pode acontecer. Pode ser que o hardware cerebral co-evoluiu com os mundos virtuais internos que ele cria. Isto pode ser chamado co-evolução de hardware-software. A linguagem poderia ser tanto um veículo desta co-evolução como seu produto de software mais espetacular. Nós não sabemos quase nada de como a linguagem se originou, uma vez que começou a se fossilizar apenas muito recentemente na forma da escrita. O hardware tem sido fossilizado há mais tempo -- pelo menos a cobertura óssea exterior do cérebro o tem feito. Seu tamanho continuamente crescente, indicando um aumento correspondente no tamanho do próprio cérebro, é a que eu quero me dirigir a seguir.

É quase certo que o Homo sapiens moderno (que data de apenas aproximadamente 100.000 anos atrás) descende de uma espécie semelhante, o H. erectus, que surgiu primeiro pouco antes de 1.6m de anos atrás. Pensa-se que o H. erectus por sua vez descendeu de alguma forma de Australopithecus. Um possível candidato que viveu aproximadamente 3m anos atrás é o Australopithecus afarensis, representado pela famosa "Lucy". Estas criaturas, que são descritas freqüentemente como macacos que andam eretos, possuíam cérebros quase com o tamanho de um chimpanzé. A Figura 1 na próxima página mostra imagens dos três crânios, em ordem cronológica. Presumivelmente a mudança de Australopithecus para erectus foi gradual. Isto não quer dizer que levou 1.5m anos para se realizar a uma taxa uniforme. Poderia ter acontecido facilmente em paradas e começos. O mesmo se aplica na mudança de erectus para sapiens. Há aproximadamente 300.000 anos atrás, começamos a encontrar fósseis que são chamados "H. sapiens arcaico", pessoas com cérebros-grandes como nós, mas com a parte inferior da testa rústica mais como a do H. erectus.

Parece, de um modo geral, como se houvesse algumas mudanças progressivas ocorrendo através desta série. Nossa cavidade cerebral tem quase o dobro do tamanho da cavidade do erectus; e a cavidade cerebral do erectus, por sua vez, tem quase o dobro do tamanho da cavidade do Australopithecus afarensis. Esta impressão é ilustrada vividamente na próxima imagem, que foi preparada usando um programa chamado Morph.
Para usar o Morph, você fornece a ele uma imagem de início e uma de fim, e diz quais pontos na imagem de início correspondem a quais números de pontos opostos na imagem final.


Tradução: Kentaro Mori - cortesia

 
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