Jung e a morte.
Paulo Costa de Souza
Jung adoeceu gravemente logo após uma queda ocorrida em janeiro de 1944; estava na época com 68anos. De acordo com sua narrativa – no livro “Memórias, Sonhos, Reflexões” – a doença resultou em longo tempo de internação. Em um estado de coma superficial, começou a ter uma série de visões que ficaram marcadas em sua lembrança.
Suas visões começam no espaço, de onde olhava a terra como que se despedindo dela. Jung tinha a idéia de estar se afastando desse mundo e da sua vida terrena. Via o Ceilão aos seus pés e a Índia bem a sua frente; para a esquerda podia vislumbrar um pedaço do Mediterrâneo. No espaço, a direita, percebeu um enorme bloco de granizo com um templo escavado nele. No templo, Jung ia receber seus auspícios; is perder parte de seus conhecimentos adquiridos na vida terrena, mas também receber informações de sua existência maior.Quando estava pronto a entrar e talvez largar de vez o corpo, seu médico atendente, vindo da terá, dirigia-se para ele. O médico veio com um recado: ele deveria voltar! Na terra protestavam contra sua partida, não queriam que ele morresse tão cedo. Percebeu então, o médico na forma primária, intuindo que a morte dele estava próxima e seria no seu lugar. Em 4/4/44, Jung sentou-se na cama pela primeira vez e seu médico deitou no seu leito, com septicemia e, de lá não levantou, vindo a morrer.
Dizer que alguém morreu no nosso lugar é um tanto subjetivo, mas a vida é subjetiva e objetivo é o nosso inconsciente. Podemos entender esses acontecimentos como uma mensagem do inconsciente, como um sonho ou aceitar como um fato ocorrido realmente.
Se observarmos os escritos de Jung após 1944, nos deparamos com uma produção abundante e de peso; podemos imaginar que sua morte seria uma grande perda para a humanidade. Comecei a pensar na “morte adiada” de Jung e a imaginar se teríamos outros exemplos na expressão artística.
No magnífico livro de Albert Kreinheder, “Conversando com a Doença”, o autor começa contando a morte do seu gato Willie, que diz, morreu em seu lugar. Ele narra que ainda estava no hospital, após ter feito uma cirurgia, quando recebeu o telefonema de sua esposa avisando que o gato tinha morrido. Murmurou como para si mesmo: -“Oh, meu Deus, aqui estou eu vivo e Willie, morto. Estou vivo porque Willie está morto”. Pela lógica, coincidentemente ocorreu a morte de um ser com a melhora de outro, mas temos as palavras do autor afirmando que um membro da sua família deveria morrer e, o gato era o mais generoso.Albert segue o livro expondo sua luta com três doenças importantes. Demonstrando grande amor pela via, deixou as palavras de seu mestre Kieffer Frantz: “O objetivo da cura não é permanecer vivo, mas sim caminhar em direção à plenitude. A morte é a cura final”.
Na área cinematográfica encontramos o belíssimo filme “Encontro Marcado”, de Martin Brest. O milionário Bill Parrish acorda – no meio da noite – de um sonho onde tinha ouvido uma voz que dizia: - “Sim”. Lava o rosto e a voz continua a dizer: - “Sim”. Pela manhã, vai para o escritório com a filha caçula Susan, no caminho aconselha-a escolher um namorado que a arrebate, pois não tem sentido viver sem amor, sem paixão. Chega a afirmar que deve acontecer algo extraordinário e diz: - “O céu pode se abrir para você”.
A cena corta para uma lanchonete onde o jovem interpretado por Brad Pitt conhece Susan e ocorre uma paixão recíproca. Logo após a despedida do casal, a morte provoca um atropelamento e toma o corpo do jovem. Na hora do jantar da família Parrish, a morte, no corpo do jovem, aparece. A morte explica, reservadamente, a sua intenção de levar Bill, declarando-se disposta a lhe conceder alguns dias em troca de ficar na sua casa e conhecer o mundo num corpo mortal. Afirma que escolheu Bill devido à sua paixão pela vida. Quando Bill pergunta porque ouvia a palavra “Sim”, a morte declara que respondia a questão dele e de todos nós: “Eu vou morrer?”
Com o desenrolar do filme, Susan se apaixona pela morte no corpo do jovem e a morte se apaixona por ela.
Quando a morte vai visitar Susan no seu local de trabalho, um hospital, depara com uma velha senhora gravemente enferma. É ela que ajuda a morte a entender os fatos; de certa maneira convence-a a alterar sua postura perante o amor a uma mortal.
-“Me leva e vem comigo!” Diz a velha para uma morte conflitada.
-“Aqui também estamos sozinhos!” Afirma a velha quando a morte quer justificar o rapto do seu amor, pela necessidade de ter uma companhia.
A morte está disposta a levar Susan consigo, soque percebe que Susan tinha se apaixonado pelo corpo que ela usava. A morte não abre mão de levar Bill, mas devolve o corpo para a alma do jovem que era o amor de Susan. Quando o amor é verdadeiro preferimos ficar longe da amada desde que ela fique bem. Numa conversa entre Bill e a morte, ele afirma: - “O amor não pode causar dano ao amado!”
Bill obteve alguns dias, e principalmente pode se preparar para o inevitável, morrer. O jovem que já tinha morrido obteve sua vida de volta... Quem mais aproveitou toda essa experiência, foi a morte. A morte chega a lacrimejar e diz para Bill: - “Obrigado pelo tempo que você me proporcionou”. Bill retruca e diz: - “É... é difícil largar isso tudo”.
Procurando pela “morte adiada” na expressão musical, surgiu o drama Rigoletto. Giuseppe Verdi escreveu uma ópera trágica onde encontramos no Duque de Mântua, personagem principal, um homem sem escrúpulo que vive de romances furtivos com todas as damas ao seu alcance. Rigoletto é o Bufão que pega uma carona na sua empáfia e vive debochando dos maridos e pais de esposas e filhas seduzidas. Um desses pais inconformados, o Conde de Monterone, roga-lhe uma maldição, pois sabe que ele tem uma jovem filha chamada Gilda.
A filha de Rigoletto leva uma vida reprimida pelo pai e numa rara saída para a missa, acaba enamorando-se do Duque de Mântua. É claro que ela cai “nas malhas” do duque e seu pai fica transtornado. Resolve então matar o duque, contrata um assassino profissional. Esquece – ou não quer ver – que a filha está apaixonada pelo duque e não avalia bem a situação como um todo. Quando o duque está para ser morto, Gilda sem ninguém saber, toma seu lugar e morre pelo seu amado. Aqui temos a sobrevida de uma pessoa sem virtudes. Seu mérito foi despertar o amor na jovem e a morte dela pode ter sido uma libertação do julgo do pai.
No âmbito do Conto de Fadas, os irmãos Grimm coletaram uma história muito rica: “Madrinha Morte”. Um homem, muito preocupado com o futuro do filho, saiu pela estrada para arranjar-lhe um bom padrinho. Encontrou Deus e recusou dar como afilhado o menino. Depois encontrou o diabo e também o recusou como padrinho. Então veio a morte e ele entregou o filho para batizar.
A morte transformou o afilhado num grande médico, ensinou-lhe a mexer com ervas e sempre aparecia quando ele visitava um paciente. Se ficasse na cabeceira da cama, o doente seria salvo com as ervas, se ficasse nos pés do leito, o doente seria levado pela madrinha. Quando numa noite atendia ao rei, viu a morte aos pés da cama, então ficou muito aflito, pois iria perder o seu rei para a morte. Maquinou um meio de enganá-la... Inverteu o nobre paciente na cama, mas a morte não gostou nada e repreendeu o afilhado. Mais tarde, a princesa caiu doente e a morte de novo estava nos pés da cama. O médico, enamorado da jovem, de novo inverteu a posição na cama e ela se salvou. A morte tolerou a rebeldia do afilhado por uma vez, mas não tolerou por duas vezes e levou-o de vez para o seu reino profundo. O médico teve sua morte adiada pelo amor ao seu rei, mas não foi adiada no amor pela princesa. Na realidade, o rei e a princesa tiveram suas mortes adiadas pelo esforço angustiado de um médico que achava que podia sobrepujar a morte, pelo simples fato dela ser da sua intimidade.
Na mitologia, um personagem muito interessante chama-se Sísifo que também teve a vida prolongada. Sísifo era rei de Corinto, casado com Mérope. Certa vez sobrevoou a sua cidade uma grande águia que levava nas garras uma jovem. Ele reconheceu a jovem Egina, filha de Asopo, um deus-rio e, viu na águia, uma das metamorfoses de Zeus. Mais tarde, o velho Asopo veio perguntar-lhe se sabia do rapto de sua filha e qual seria seu destino. Sísifo logo fez um acordo. Em troca de uma fonte de água para sua cidade ele contava o paradeiro da filha. O acordo foi feito e a fonte presenteada.
Desconfiado que Zeus mandaria a morte no seu encalço, pediu a sua mulher, caso ele morresse, que ela não realizasse os funerais. Assim aconteceu e quando Sísifo chegou ao Hades notaram a falta do seu funeral. Então, pediu autorização para voltar e reclamar com a esposa. De fato foi liberado, mas não voltou ao Hades conforme o combinado. Passados alguns anos, morreu de velhice e sua alma retornou ao Hades. Como castigo, pelo golpe aplicado, recebeu uma ocupação constante: ficar rolando uma pedra colina acima e quando essa estava quase no topo, escorregava de suas mãos e voltava para o pé do monte.
Sísifo acabou conhecido por executar um trabalho rotineiro e cansativo. Por vezes esquecemos que esse trabalho foi um castigo para mostrar-lhe que não temos liberdade como os deuses. Temos no máximo a liberdade de escolher a quem ficar presos. Devemos pois, nos concentrar na vida cotidiana e vivê-la na sua plenitude, sendo criativos na repetição e na monotonia. Sísifo era um rei gozador, brincalhão, descontraído e amava a sua cidade, Corinto. Pelo amor a vida enganou Hades e viveu mais um pouco.
M outro mito, colhido na Frigia, encontramos um carvalho e uma tília que nascem de um mesmo tronco. Sabemos que Zeus era o protetor dos viajantes e da hospitalidade dispensada a esses. Um belo dia, Zeus pegou Hermes pelo braço e disfarçados em viajantes cansados e famintos foram para a terra inspecionar e testar a bondade dos humanos. Percorreram toda uma vila batendo de casa em casa; de todos recebiam a porta na cara e a negativa de comida e hospedagem. Já iam desistindo da procura, quando no alto da colina avistaram uma choupana, a mais pobre já vista. Lá chegando, foram recebidos por dois sexagenários que moravam sozinhos. Sem perceber que os viajantes eram dois grandes deuses do Olimpo, mandaram os caminhantes entrar e serviram o que tinham de melhor. Já no meio da refeição perceberam que o vinho oferecido não esvaziava na jarra, apesar de já terem bebido bastante. Assustados, caíram de joelhos e pediram desculpas por não terem reconhecido os dois grandes deuses. Zeus levou os dois velhinhos para fora e lá de cima do monte mostrou-lhes a antiga vila que agora era uma grande lagoa. O casal piedoso ainda chorou pelos vizinhos, mas logo transformaram o choro em espanto, quando sua cabana converteu-se em um reluzente templo.
Zeus afirmou que além de terem a vida poupada, eles poderiam pedir o que quisessem. Prontamente escolheram ser os sacerdotes daquele templo e ter a graça de morrerem juntos para nenhum do dois sofrer com a ausência do outro. Assim foi feito... Viveram até quase os 100anos cuidando do templo e num dia de lindo pó do sol, viram seus corpos se transformarem em árvores, ele em carvalho e ela numa tília. Só tiveram tempo de sussurrar: - “Até a eternidade, meu grande amor”.
Ainda na mitologia grega: Pélias inventou de dar sua filha Alceste em casamento, somente para quem conseguisse chegar ao seu palácio em um carro puxado por um javali e um leão. Apolo muito agradecido pela hospitalidade de Admeto e sabendo da paixão dele por Alceste, deu uma mãozinha e atrelou esse carro feroz, concretizando o casamento dos dois.
Mais tarde, Apolo soube pelas Moiras que a vida de Admeto seria encurtada, intercedeu mais uma vez, só que Tânatos exigiu uma outra alma no lugar de Admeto. Não querendo morrer, Admeto saiu em busca de alguém para ir em seu lugar; procurou entre os servos e nada... Todos muito dedicados, mas morrer pelo patrão, jamais... Solicitou a seus pais, já velhinhos e, obteve a mesma resposta: eles queriam curtir o restinho de vida. Finalmente, sua esposa Alceste ofereceu-se para ir em seu lugar e, ele aceitou...
Veio a morte da esposa, os funerais e eis que surge Héracles. Encontrou Admeto choroso, mas esse não contou que o funeral era da esposa. Quando soube da morte de Alceste ficou muito chateado com a situação e resolveu fazer uma surpresa para o amigo. Foi até o cemitério, esperou Tânatos chegar para pegar Alceste e se embolou com ele. Acabou vencendo a luta a conseguiu Alceste de vota, entregando-a ao amigo Admeto. Alceste proporcionou mais um tempo de vida para o seu amor e principalmente um futuro para seus filhos.
No “Mito de Er”, de Platão, Er teve sua morte adiada para transmitir conhecimentos aos mortais. Ele era um soldado natural da Panfília, morto em batalha. Passados 10dias do combate vieram recolher os restos mortais dos guerreiros e encontraram o corpo de Er, intacto e preservado! Resolveram leva-lo para sua terra natal e queima-lo em pira funerária, como mandavam os costumes da época. Foi quando ele ressuscitou e disse que os “juízes” assim tinham determinado, para que contasse aos mortais o que se passava com as almas quando enfrentavam as Moiras e se preparavam para reencarnar. O importante para nós no momento é o fato de um ser humano (o soldado Er) ter sua vida prolongada para trazer uma mensagem às almas encarnadas. Um aspecto do amor dos deuses pelos seres humanos é oferecer conhecimentos, elevar a alma humana para cada vez mais para perto do Olimpo. Aprendemos muito com os arquétipos – os deuses, e com certeza, os deuses também aprendem muito conosco, portanto, com o decorrer dos tempos os deuses se transformam. Talvez por isso eles estão nos dando um tempo de vida maior.
E Jung, viveu mais 17 anos por amor? Sendo verdade, qual o foco do seu amor? Eu acredito que Jung amou a doação, doou sua alma para o seu mito. Viveu sua vida impulsionada pelo inconsciente. O amor é uma força, um arquétipo, algo que existe a priori, só precisamos admiti-lo e deixa-lo nos invadir, nos tomar, nos possuir! Talvez o amor seja o único arquétipo que ao nos possuir não cause doença, nem física, nem psíquica.Talvez o amor seja o arquétipo central, Deus...
Cristo morreu pelo seu amor a todos nós e nós vamos com certeza morrer pelo amor. Sem amor não podemos viver, sem amor não podemos morrer...
O autor é médico e um estudioso daPsicologia Junguiana. E.mail: paultani@terra.com.br
* Ilustração: Talvez o amor seja o único arquétipo que ao nos possuir não cause doença, nem física nem psíquica. Talvez o amor seja o arquétipo central, Deus...
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