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10 - COMO EM FINDHORN - DEPOIMENTO Nº 2 - O PRESENTE

Janeiro/Fevereiro de 1996

Era chuva pra ninguém botar defeito!
Dias e dias se sucediam e a chuvarada parecia que aumentava. Os jornais e as TVs anunciavam que o Rio das Velhas “saíra da caixa” e invadia propriedades e até algumas cidades ribeirinhas. Caíra uma barragem na cidade de Jequitibá/MG e a água invadira a centenária Igreja Matriz onde, até hoje, existe uma marca d´água barrenta de metro e tanto numa das paredes, sinalizando os tempos diluvianos dos finais do século 20: “As veia viéro rezá na Igreja nus ano de 97”, explica, até hoje, uma beata aos turistas da Estrada Real.
Resido nas cercanias desta cidade onde “as veia viéro rezá”, mas não pude rezá com elas as suas rezas, porque estava a salvo destas águas fluviais raivosas, freqüentava praias de outras águas, as águas do mar, em busca do iodo do qual tanto necessito. Quando retornei, os jardins da minha casa estavam irreconhecíveis, transformados em um pandemônio. Algumas árvores haviam tombado com a ventania das grandes tempestades e encontrei as suas folhas e galhos moídos, em tudo o que foi canto. Bem na entrada do meu jardim fizemos uma “rotativa” e no centro da “rotativa” criei uma Pracinha que é: os meus amores, assim mesmo, no sentido plural!
Ao seu redor a minha pracinha possui árvores vetustas, centenárias, originais no terreno. São pequizeiros, paus-de-ferro, caramboleiras... tal e qual uma mini-floresta a qual prezo muito. Anos e anos a fio venho plantando ali, cuidando, de quando em vez bradando juras de amor eterno e de gratidão, aquele local paradisíaco. Como fã ardorosa de Findhorn desde o seu início nos anos 60, apliquei e aplico nos tratos dos jardins da minha mini-floresta e da minha pracinha que enfeita o seu núcleo, todos os “efes e erres” prescritos pelos Devas, os agentes das ações levadas a efeito em Findhorn. Bato papos incríveis com as florinhas, as margaridinhas amarelas e brancas, as Maria-sem vergonha, beijinhos e gérberas. A prata da casa da minha região - o CERRADO – tem lugar especial e reina jubilosa nos canteiros e nos troncos e galhos das árvores: camarás coloridos, o cipó de São João, os gravatás e os chifres de veado, imensos, despencando dos galhos das árvores: um céu!
Pois, minha boa gente, cheguei de viagem e após observar penalizada as devastações provocadas pelas chuvas diluvianas, convoquei o meu exército particular para “ocuparmos a praça” e lá fomos nós empunhando as nossas armas: esfregões, vassouras e toda aquela parafernália limpatória moderna. E foi quando levei um baita susto!
Tenho, há anos, um conjunto de fibra de vidro branco, composto por quatro cadeirões e uma mesinha redonda, aquele tipo de móvel de beira de piscina. Está exposto no tempo há uns dezenove anos, em estado perfeito.
Ao retirar do tampo da mesinha um montão de folhas apodrecidas ou não, galhos e galhinhos de todos os tamanhos e espessuras, milhares de detritos e sujeiras provocadas pelas chuvas e pelos ventos: o meu queixo caiu e fiquei embasbacada!



Havia uma mandala perfeita desenhada por mão de mestre, no tampo da mesinha. A mandala parecia ter sido feita com uma técnica denominada “bico de pena” e com uma grande sensibilidade artística. Já fui proprietária de uma galeria de arte que, por coincidência ou não, se chamava Mandala. As coincidências são muito interessantes!
Mas, naqueles instantes, o que me veio à mente foi que, talvez, um dos meus filhos tivesse se hospedado na minha casa durante a minha ausência, na companhia de um amigo e que este tal amigo imaginado por mim se revelara um artista muito sensível através do seu desenho. Só que eu não conhecia amigo algum do meu filho com dotes de desenhista. Interroguei meu filho algumas semanas após o meu achado e ele respondeu-me que ninguém viera à minha casa devido à situação calamitosa das estradas provocada pela enchente do Rio das Velhas, que obstruíra todos os caminhos de acesso à residência. Residimos às margens do rio e o rio perfaz quase todos os nossos limites territoriais. Meu filho mostrou-se tão assombrado quanto eu, ao contemplar a mandala. Tirei, então, o tampo da mesa e o levei à BH para ser submetido à apreciação de uma grande pintora mineira, de fama internacional. Não lhe disse nada a respeito do autor do desenho, nem sobre a “origem da tela” onde fora projetada a obra.



A pintora avaliou a peça, revirando o tampo da mesa do avesso e do direito. Esfregou a superfície onde estava o desenho e analisou tudo o que viu, o que era e o que não era.


“Parece ser um bico de pena, mas não é! Não é também, um “craquelet”... olha as linhas duplas, umas mais estreitas do que outras, o desenho tem colorido apesar de ser monocromático, é bem concebido, misterioso e muito curioso: a gente pode ver nele flores ou insetos, astros ou qualquer uma outra coisa abstrata, é um caleidoscópio, mais ou menos, do tipo de um teste de Rochas”.
Este tampo de fibra de vidro surpreende todas as pessoas que visitam a minha casa. Ninguém consegue encontrar uma resposta mais plausível do que a de uma manifestação de gratidão, carinho e amizade dos Devas que freqüentam a minha parcinha, quem me ofereceram este presente!



Vera Filizzola

 
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