O Curare.
Existem 80.000 espécies de plantas na Floresta Amazônica. Intriga a nossa mente "civilizada", como foi possível a descoberta da farmacopéia shamânica, dentro das dificuldades de se conhecer e saber misturar duas plantas nesta imensidão de possibilidades, para a cura de uma determinada moléstia. Teoricamente uma possibilidade cerca de 3.700.000.000 de testes!!! Não fica nisto: muitos remédios exigem a mistura de várias plantas e a sua manipulação é extremamente complexa. O ayahuasca é o produto final da manipulação de duas plantas. Uma delas vem das folhas de um rizoma e contem um hormônio secretado pelo cérebro humano a dimethyltryptamina, um poderoso alucinógeno que foi descoberto pela ciência ocidental em 1979. Se deglutido, é atacado por um enzima do estômago e torna-se inofensivo. O segundo componente do ayahuasca, extraído de um trepadeira, contem substâncias que protegem a dimethyltryptamina deste enzima. E existe o "depois", a raspagem das fibras e a manipulação rigorosa, escrupulosa, seguida da cocção do chá, o que leva tempo. Como descobriram estes processos os ditos "selvagens" e em primeiro lugar as plantas corretas? Como sabiam que existia um hormônio alucinógeno "a perigo" em uma delas e como encontraram o seu "protetor" em outra? Como o "Curare", existem vários tipos de plantas para se fazer a "mistura" e nem todas elas crescem no mesmo lugar.
- "Portanto, eis um povo sem o auxílio de microscópios eletrônicos que escolhem, dentre 80.000 espécies de plantas da Amazônia, as folhas de um rizoma contendo um hormônio alucinógeno do cérebro, sabendo que devem combinar estas folhas com uma trepadeira que contem substâncias que fazem a inativação de um enzima do trato digestivo, que tem como função bloquear o efeito alucinógeno das folhas do rizona. E agem assim para modificar as suas consciências. É como se soubessem das propriedades moleculares das plantas e a arte de combiná-las, e quando alguém lhes pergunta como eles sabem estas coisas, eles respondem que a sua sabedoria vem "diretamente das plantas alucinógenas" - Jeremy Narby.
O Curare é uma das grandes descobertas dos shamans usado pela medicina ocidental desde o ano de 1940, como relaxante e durante certas intervenções cirúrgicas. A manipulação que resulta no Curare é sofisticada e complexa. Várias plantas são fervidas juntas durante três dias, provocando uma fumaça letal. O resultado final necessita uma peça tecnológica, um "cachimbo de sopro" para a retirada dos gases mortíferos. Quarenta tipos de Curare são usados na Amazônia e há a necessidade, às vezes, da substituição de algumas das plantas, pois não crescem todas no mesmo local. Atendo-se a este pormenor, pode-se dizer que o Curare foi "CRIADO" quarenta vezes! O Curare tem que ser injetado na corrente sangüínea, tomado oralmente é inofensivo. A sua invenção é qualquer coisa que pode ombrear-se com a construção da Grande Pirâmide do Egito e outros monumentos "impossíveis" da antiguidade. O Jaborandy é outra conquista dos shamans, comercializada pela Merck no combate do glaucoma (oftalmologia). Os shamans amazônicos recusam o título de descobridores ou de inventores desta poderosa droga: - "Os espíritos nos deram o Curare"!
* Ilustração: Claudio Salvio.
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