Trabalho, instrumento da paz.
 Abraham Maslow, na Introdução à Psicologia do Ser, faz um estudo bem claro sobre o processo de crescimento psicológico do ser humano. Maslow baseia seus estudos em pessoas sadias e bem dotadas. Assim, o crescimento é visto não só como a compreensão dos defeitos básicos da personalidade, mas também como o desenvolvimento de capacidades e aptidões (talentos, tendências criadoras, potencialidades constitucionais.) Promover e estimular esse crescimento por meio do incentivo às aptidões individuais, possibilita o despertar do Ser Interno do homem. Temos, dentro de nós, tendências opostas. Um conjunto se apega à segurança e à defesa, temendo perder o que já possui; outro nos conduz à totalidade do eu. No processo de crescimento, o indivíduo é impulsionado, por uma necessidade interior, a se interessar por coisas positivas. Estará preparado para realizar com aptidão qualquer atividade, desde que ela se integre à sua própria e natural inclinação. O homem que segue suas tendências naturais, que se desenvolve dentro da profissão para a qual foi chamado, está colaborando de certo modo para o seu próprio equilíbrio e para o equilíbrio daqueles que o cercam. Sentir-se integrado naquilo que se faz é fator importantíssimo para o rendimento do trabalho. As idéias do italiano Domenico de Masi vêm complementar minhas reflexões sobre o tema. De Masi, em seu livro O Ócio Criativo, nos mostra a história da humanidade através da história do trabalho humano. Segundo ele, houve ao longo do tempo, a mudança da sociedade rural para a sociedade industrial, e, a partir da segunda metade do século XX, o surgimento da sociedade pós-industrial, que seria, em linguagem cultural, o pós-moderno. Nas sociedades primitivas, o homem muitas vezes trabalhava ao ar livre, junto com a família, podendo assim unir seu trabalho à contemplação da natureza. Acompanhava o processo da criação do seu objeto, desde a busca da matéria prima até a venda dos produtos nos mercados. Não era um especialista mecânico. Segundo de Masi, o trabalho mecânico e a postura repetitiva que têm caracterizado a civilização industrial poderiam, na era pós-industrial, ser transferidos para as máquinas e o ser humano, tanto no trabalho como no ócio, usaria mais sua criatividade. Com o teletrabalho, utilizando antigas e novas tecnologias, sem a necessidade de sair de casa, o homem teria mais tempo livre, que poderia ser utilizado para atividades dentro da própria família - tarefas domésticas, convivência maior com os filhos, e outras, como cuidados com o corpo, estudos, lazer, alem de trabalhos voluntários para a coletividade. Na Índia, como a máquina ainda não assumiu a liderança das atividades domésticas, a atividade manual e artística é uma forma de reunir as famílias. Sentam-se no chão, à moda indiana, espalham tesouras, panos, papéis, lantejoulas, arames e trabalham em conjunto. A confecção de bonecos é tarefa das mães de família, desde as avós até as netas, e lembram os presépios, as luzes e árvores, que criamos no Ocidente para comemorar as festas de Natal. Na Índia, os bonecos contam as histórias dos deuses, das famílias, dos costumes e trabalhos. O artesanato é estimulado pelo governo e os bonecos são usados com função educativa nos museus, nas escolas e nas casas. No estado de Karnataka o governo continua, até hoje, incentivando as exposições de bonecos, premiando os melhores artistas e artesãos e os dirigentes comparecem pessoalmente as inaugurações de artesanato. Há um festival de bonecos todos os anos, que oscila com o calendário hindu. O Dussedra Festival, como é chamado, prolonga-se por 10 dias e tem o seu início na lua nova do mês de outubro. Esse festival é celebrado por todo o país e significa o triunfo do bem sobre o mal, a vitória de Rama sobre o demônio Ravana. Em Mysore, as festividades são apresentadas em deslumbrante procissão com elefantes e cavalos adornados. No sul da Índia, durante esse festival, a deusa Durga é cultuada por nove dias. No décimo dia, ela é levada para fora em procissão e mergulhada nos rios ou no mar. Os hindus a reverenciam como a exterminadora do orgulho. Artistas e artesãos para lá se dirigem com os bonecos e, humildemente, pedem a destruição do ego. Esses exemplos vindos do Ocidente e do Oriente, nos fazem refletir mais uma vez sobre a energia da criatividade usada como instrumento de paz.
(*) Artigo editado a partir de trechos dos livros Os Caminhos da Arte, Editora C/Arte, Belo Horizonte, 2000 e Encontro com Mestres no Oriente, Luzazul Editorial, Belo Horizonte, 1994.
(**) Maria Helena Andrés, artista mineira e ex-aluna de Guignard, aprendeu com o mestre a arte de desenhar e pintar. Participou de diversas Bienais Internacionais. Estudiosa do pensamento oriental e da história da arte escreveu vários livros de reflexões sobre a arte desde as suas origens até a contemporaneidade, entre eles: Os Caminhos da Arte, Encontro com os Mestres no Oriente e Vivência e Arte. Contatos: Maria Helena Andrés: 31-35472204 ou 31-32212248
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