Oriente e ocidente, fusão de culturas.
 Quando pela primeira vez estive em Goa, senti-me como se estivesse no Brasil, em pleno coração da Índia. Ali estiveram os portugueses, deixando sua presença nas construções barrocas, na língua e nos costumes do povo. Nas aldeias goesas, existe a tradição de se cantar serenatas como em Diamantina. Em Goa, eu me sentia em casa. As pessoas são amáveis, acompanham os visitantes, convidam-nos para jantar, levam-nos aos concertos e recepções. Fiquei conhecendo de perto a vida de uma aldeia goesa. O governo de Goa, naquela época, era socialista e a divisão de terras propiciava muitas desavenças. O sistema de castas, de origem hindu, prevalecia até nas famílias católicas. O Dr. Antonio de Menezes, um renomado historiador indiano, me contava a história de Goa e da Índia. Aprendi muito sobre a música indiana e a sua relação com o canto gregoriano dos cristãos, que se originaram de uma fonte comum. Ambos se expressam de forma circular, repetitiva, elevando as vibrações para um plano mais sutil. Todas as tardes, ele me ensinava um pouco da historia de Goa e eu fazia a ponte com a historia do Brasil. Através desse dialogo soube que um dos maiores arquivos da historia colonial do Brasil encontra-se em Panjim, a capital, merecendo, da parte dos brasileiros, um estudo mais aprofundados sobre esse assunto. Segundo o historiador, quando Afonso de Albuquerque chegou a Goa, encontrou o ensino elementar ministrado à sombra de árvores. Para efeito de maior expansão do Cristianismo e da cultura portuguesa, o conquistador português incentivou a criação de escolas para crianças e adultos. As cartilhas escolares vinham da metrópole e o ensino foi confiado aos religiosos. A influência de Portugal na cultura goesa durou quatro séculos e meio, de 1510 a 12961. Ali foi criada a primeira imprensa do Oriente com o objetivo de expandir o Cristianismo e, ao mesmo tempo, divulgou a espiritualidade da Índia na Europa. Depois da retomada de Goa pelo governo da Índia, em 1961, os portugueses regressaram a Portugal e a ex-colônia perdeu o intercambio com o continente europeu. As pessoas acima de 60 anos ainda falam o português, mas os jovens já perderam o contato com essa língua, desde que o governo da Índia decretou a sua substituição pela língua local. Quando o passado é lembrado, sua vibração nos chega intensa. Mas a paisagem redime o passado sangrento das batalhas e das mortes e a beleza das praias se impõe como uma benção, levando para longe os conceitos, as idéias e o fanatismo religioso. O mar assiste a tudo sereno, banhando de paz a costa indiana. Goa tornou-se a porta de entrada da Índia para o mundo ocidental mas também foi palco de conflitos sangrentos como a Inquisição. Goa desempenhou o papel de unificadora de duas civilizações. Navios chegavam da China, trazendo coisas fantásticas do Extremo-Oriente: louças chinesas, caixas, arcas de madeira e biombos trabalhados. O comércio intensificou a síntese e a construção dos templos, promovendo a integração no campo das artes. Artesãos goeses que trabalhavam nas igrejas davam um cunho local à decoração. Os símbolos hindus eram substituídos por símbolos cristãos, mas a decoração, os arabescos conservavam as características orientais. Muitas vezes, as igrejas cristãs erguiam-se nas ruínas das mesquitas e dos templos hindus, mas eram conservados detalhes da antiga construção. O historiador Antonio de Menezes nos ensinava que a arte de Goa deixou-se influenciar por motivos da arte hindu e muçulmana, integrando-se muito bem com a arquitetura barroca. Primeiro houve a fusão de raças, incentivada por Afonso de Albuquerque, depois a fusão e a combinação de vários estilos de arte. Nos entalhes feitos em teca, árvore da região, o rendado dos arabescos alcança um estilo próprio criado pelos famosos entalhadores de Goa. As manifestações artísticas e os símbolos, transcendendo a palavra, captam de forma direta a integração dos diversos povos, fazendo sentir a sua origem comum, que é a origem do próprio ser humano sobre a terra. As ideologias separam os homens porque são conceitos mentais. A mente, de posse da verdade, resiste à invasão de seus domínios. Mas a Verdade é Uma, Indivisível, e, acima de tudo, brilha, sem fronteiras, como o sol do meio dia, clareando a terra como um todo. Através da forca energética da arte manuelina, os dois hemisférios conjugaram-se em gloriosa harmonia, antecipando o período do Barroco, renovador de conceitos antigos. A influência da Índia sobre a arte portuguesa, por sua vez, veio ressoar no Brasil, alguns anos mais tarde, através do Barroco. Buscamos nossas origens, nossos pontos de semelhança com a Índia, como se pudéssemos reconstruir através dos dados históricos e das manifestações artísticas, religiosas e culturais, o caminho das índias, gerador de energia das grandes descobertas, da intensificação do comercio e do florescimento das artes.
(*) Maria Helena Andrés, artista mineira e ex-aluna de Guignard, aprendeu com o mestre a arte de desenhar e pintar. Participou de diversas Bienais Internacionais. Estudiosa do pensamento oriental e da história da arte escreveu vários livros de reflexões sobre a arte desde as suas origens até a contemporaneidade, entre eles: Os Caminhos da Arte, Encontro com os Mestres no Oriente e Vivência e Arte. Contatos: Maria Helena Andrés: 31-35472204 ou 31-32212248
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