Reeducação através das Artes: a Dança das Marés.
 A arte é grande auxiliar da educação. Uma educação que visa apenas ao acúmulo de conhecimentos ou à repetição de conceitos do passado é uma educação fragmentada. Não atinge o desenvolvimento do ser humano sob todos os seus múltiplos aspectos. O acúmulo de conhecimentos teóricos, não vivenciados, permite apenas uma visão parcial. Para haver compreensão total é necessário viver o aprendizado e percebê-lo de forma global. O papel do educador assume um caráter de constante humildade diante do novo que desperta. Todo ser humano tem direito à sua própria individualidade e não pode ser moldado de acordo com normas. O desenvolvimento da consciência, feito com o auxílio da arte, torna-se um processo natural de crescimento. O movimento criador é um impulso do ser humano, que flui diretamente de suas raízes mais profundas. As artes da dança e da música são aberturas para o movimento, despertando o jovem para a compreensão do seu relacionamento com o espaço que o rodeia. Por meio da dança espontânea e da expressão corporal ele pode conhecer e explorar seu próprio corpo, veículo de todo um potencial interno. O conhecimento do corpo nos faz conscientes de nossa realidade mais profunda. Sentimos que estamos unidos a tudo o que existe, percebemos o nosso relacionamento com os animais, as pessoas e a natureza. O corpo é o primeiro instrumento de conscientização. O movimento do corpo traz como conseqüência o movimento das mãos, que funcionam como intermediárias entre a mente, o físico e as emoções. Na educação pela arte, as mãos ocupam um lugar de grande importância, pois permitem o extravasamento imediato dos símbolos do inconsciente, aflorados através de formas, cores e sinais gráficos. Todas as atividades não verbais estão em contato direto com as emoções, os sentimentos e o intelecto, o que permite trazer à tona alguma coisa daquilo que a palavra não pode atingir. A arte na educação vem contribuir para o reencontro do homem consigo mesmo e com a natureza para mais tarde, espontaneamente, despertá-lo para a sua posição no universo. Então ele compreende, sem esforço, que a verdadeira sabedoria não pode ser encontrada fora, nos objetos e coisas do mundo, nem no acúmulo de conhecimentos teóricos, porque já existe dentro dele, desde a infância. São recursos de reconstrução humana as aulas de criatividade nas Escolas de Belas Artes, os workshops nas empresas, os teatros e corais nos asilos, hospitais e creches, os espetáculos circenses nas ruas, os saraus que se organizam nas festas familiares, os contadores de histórias e várias outras iniciativas que emergem espontaneamente em vários segmentos da sociedade. A arte do momento desce dos museus e galerias, deixa de ser privilégio das elites, para ajudar a humanizar o nosso cansado e violento mundo materialista. Para haver a harmonização do ser humano, torna-se necessária a união dos opostos, razão e intuição, o equilíbrio do lado esquerdo e direito do cérebro. Também para a harmonização do planeta, torna-se necessário o equilíbrio dos seus lados esquerdo e direito, que correspondem à razão do mundo ocidental e à intuição do oriental. Para nos compreendermos como uma síntese do universo, devemos começar com a educação de todas as potencialidades contidas em nosso corpo, de nossos movimentos e vibrações mais sutis. Somente compreendendo a grandeza do mecanismo de nosso próprio corpo, de nosso psiquismo e de nossa mente com todo o seu potencial, poderemos alcançar a realização de nós mesmos como seres humanos, vivos e habitantes de um planeta. A verdadeira paz, em escala planetária, brota espontânea desse conhecimento de nós mesmos. Só então seremos livres e poderemos repetir como o oráculo de Delfos: "Conhece-te e sê livre". A arte, num reencontro feliz de ética com estética, busca a reeducação do ser humano nos diversos setores da sociedade. Escolhe os menos favorecidos como ponto de referência e alarga os seus horizontes para dimensões maiores. Busca os espaços onde a violência é uma constante, ali levanta o seu estandarte de paz. Exemplo disto é o espetáculo de dança e música dirigido pelo coreógrafo paulista Ivaldo Bertazzo, apresentado no SESC Tijuca, no Rio de Janeiro em parceria com o grupo UAKTI de Belo Horizonte. A Dança das Marés foi inspirada na dança Kathakali, original do estado de Kerala, no sul da Índia. Ivaldo Bertazzo é estudioso da filosofia da Índia e de lá trouxe inspiração para essa coreografia. Na Índia, as apresentações de dança são acompanhadas ao vivo por um conjunto musical. Para esse projeto foram convidados dois mestres músicos da Índia a fim de orientar os jovens: um tocador de tabla e uma dançarina indiana de Kathakali, que permaneceram dois meses no Brasil. A dança da Índia expressa simbolicamente o desejo da alma individual de alcançar a Unidade com o infinito, ou a alma do Universo. Através da música e da dança, esse objetivo é alcançado e o estado de Ananda, ou Bem-aventurança, vivenciado pelo dançarino ou o musico, é transmitido à platéia. No SESC Tijuca foi armado um palco semicircular, todo em tons de terra. O público, assentado nas arquibancadas, está também dentro do imenso palco. Um tapete esticado no chão dá passagem para o público que sobe os degraus da arquibancada, lotando o anfiteatro. Observamos o espaço, a sobriedade de recursos usada pelo cenógrafo, a iluminação e o núcleo reservado aos músicos, com os instrumentos do grupo UAKTI arranjados como uma instalação. No centro do palco, uma bola dourada se mantém suspensa por um cordão de aço, como um enorme pêndulo reluzente. A dança segue o ritmo dos tambores e flautas, harmonizando os passos com os sons dos instrumentos criados com tubos e marimbas. A Dança das Marés, com seus jovens componentes que moram na favela da Maré, no Rio de Janeiro, nos faz refletir sobre o papel da arte neste princípio de milênio. A função da arte em sua essência é a transformação do ser humano. Essas transformação é obtida no próprio exercício da arte, no movimento que conduz o corpo de forma harmoniosa ao encontro de seu próprio self. Os iogues se tornam um com o universo através da meditação. Os músicos e dançarinos também realizam essa união, conjugando o movimento do corpo com a vibração do som. O encontro do Oriente com o Ocidente, que veio se processando de forma acelerada no final do século XX, tem agora a grande possibilidade de realizar a síntese planetária.
(*) Maria Helena Andrés, artista mineira e ex-aluna de Guignard, participou de diversas Bienais Internacionais. Estudiosa do pensamento oriental e da história da arte escreveu vários livros de reflexões sobre a arte desde as suas origens até a contemporaneidade, entre eles: Os Caminhos da Arte (Editora C/Arte,2000), Encontro com os Mestres no Oriente (Luzaul Editorial, 1994) e Vivência e Arte (Editora Agir, 1969. Contatos: Maria Helena Andrés: 31-35472204 ou 31-32212248
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