Fluxus
 O acaso é importante para nosso desenvolvimento. Na realidade, o acaso não existe. "Eu nunca te encontraria se já não estivesses comigo".(SaintExupery). Uma exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil, em Brasília, acenava com um grande cartaz: "Fluxus".
Caminhei despreocupadamente em sua direção, sem ter programado com antecedência. À porta, comprei uma camisa com uma enorme seta e a legenda "Fluxus". Afinal, pensei, já vestida com a camisa, o que será "Fluxus"? Lá dentro, meninas vestidas de preto com botas alaranjadas, conduziam grupos, explicando o significado das obras. "Então, qualquer um de nós pode ser artista?" indagou uma senhora, entusiasmada com a idéia. Acompanhei com curiosidade os debates, sem me apresentar. Aquelas idéias me tocavam de perto, lembravam o meu próprio posicionamento sobre a comercialização da arte, os happenings dos anos 60, os domingos de criação que possibilitavam a todos a oportunidade de criar. Quadros não são feitos para combinar com tapetes e cortinas, nem para serem colocados como títulos na bolsa de valores do mercado de arte. A preocupação comercial leva o artista a concessões imperdoáveis, que fazem esquecer a razão de ser da arte como a força vital de uma civilização, para colocá-la no plano de especulação comercial. O valor de um trabalho artístico, suas qualidades expressivas, não se limita a números e cifrões, mas alcança um lugar que lhes assegura realmente a permanência no tempo e sua equiparação com as demais artes. Assim como com a música e a poesia, também o quadro que vemos numa exposição contém toda uma vida de lutas e experiências. Não se podem separar as inquietações da alma humana, seus momentos de sofrimento ou alegria, de violência ou de paz, de revolta ou de submissão daquela forma que espontânea e diretamente lhe sai das mãos. A arte é a mais pura manifestação da liberdade, hoje tão limitada na mecanicidade do mundo moderno. Toda e qualquer forma de imposição, ao atingir o domínio da arte, impede-lhe o progresso e a conduz à mediocridade. O sentido de liberdade é expresso com grande veemência por meio da arte, porque ela se fundamenta e nasce num clima no qual a opressão não tem lugar. Pode-se proibir o homem de falar, mas nunca de sentir. A arte é a expressão do sentimento humano, desse sentimento tantas vezes bloqueado por slogans e rótulos, mas que desperta quando se desenvolve a capacidade de inventar, de renovar, de contatar a essência do próprio Ser. O verdadeiro humanismo brota das mãos dos artistas e da alma dos poetas, dos cineastas, dos escritores, dos músicos, que proclamam espontaneamente a compreensão entre os povos. O humanismo autêntico tem suas raízes no sentimento, e não na razão. Segundo a apresentação da exposição, "o Fluxus nasceu em 1961, a partir da liderança de George Maciunas, tendo como origem a rejeição aos valores e ao meio que cercava as "artes eruditas" e o caráter comercial que dominou o mercado internacional de arte após o fim da Segunda Guerra Mundial.Esse movimento de contracultura abria também uma porta para a aproximação com o zen-budismo e sua valorização. O Budismo zen não é propriamente uma religião, mas um modo de viver espontâneo, direto, criativo. Os conceitos, dogmas e fórmulas são eliminados, para darem lugar à intuição pura. Registro aqui um texto de Thomas Merton sobre a linguagem Zen: "A linguagem utilizada pelo Zen é, portanto, em certo sentido, uma antilinguagem. E a "lógica" do Zen é o inverso radical da lógica filosófica. O dilema humano da comunicação está no fato de que não podemos nos comunicar ordinariamente sem palavras e sinais, mas mesmo a experiência ordinária tende a ser falsificada pelos hábitos de verbalização e racionalização. Os instrumentos convenientes da linguagem nos permitem decidir de antemão o que pensamos que as coisas significam, e constituem uma tentativa para vermos as coisas apenas de um modo que se enquadre em nossos preconceitos lógicos e fórmulas verbais. Em lugar de ver as coisas e os fatos como realmente são, nós os vemos como reflexos e verificações de sentenças que previamente construímos em nossas mentes. Esquecemos com muita rapidez como simplesmente ver as coisas, substituindo nossas palavras e fórmulas de maneira a vermos somente o que se enquadra convenientemente em nossos preconceitos. O Zen utiliza a linguagem contra a própria linguagem, para fazer estourar tais preconceitos e destruir a enganadora "realidade" existente em nossas mentes, para que possamos ver diretamente. O Zen diz, como Wittgenstein dizia: não pense: olhe! Uma vez que a intuição Zen procura despertar uma consciência metafísica para além do ego empírico, que reflete, conhece, fala, essa conscientização deve estar imediatamente presente a si mesma e não sofrer a mediação do conhecimento conceitual, reflexo ou imaginativo." Saí da exposição refletindo mais uma vez sobre a sincronicidade dos movimentos artísticos que, intuitivamente movidos por um impulso energético planetário, buscam a libertação dos condicionamentos e a valorização do agora.
(*) Maria Helena Andrés, artista mineira e ex-aluna de Guignard, aprendeu com o mestre a arte de desenhar e pintar. Participou de diversas Bienais Internacionais. Estudiosa do pensamento oriental e da história da arte escreveu vários livros de reflexões sobre a arte desde as suas origens até a contemporaneidade, entre eles: Os Caminhos da Arte, Encontro com os Mestres no Oriente e Vivência e Arte. Contatos: Maria Helena Andrés: 31-35472204 ou 31-32212248
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